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Material Didático Impresso como Elemento do Sistema de Comunicação em EAD

Lígia Silva Leite e Lucí Hildenbrand

O fato de hoje serem priorizadas as tecnologias eletrônicas de ponta é facilmente justificável porque encontra amparo em razões bem conhecidas e fundadas, mas isso não implica exclusão ou refutação de qualquer outra tecnologia educacional, independentemente de sua geração.

O vínculo existente entre a tecnologia impressa e a cultura escolar é tão íntimo que, inclusive, alguns autores chegam a afirmar que a história dos sistemas escolares como redes institucionalizadas de ensino é paralela à história do material impresso de ensino.
(Moreira, 1998)

A tradição da forte presença da tecnologia impressa tem sido mantida também na educação a distância (EAD). A literatura especializada registrou o surgimento formal da EAD no início do século XIX, quando o ensino por correspondência utilizava-se do material impresso. Esse registro não descarta a possibilidade de que outras práticas tenham sido exploradas em épocas anteriores, mas, sem dúvida, evidencia como a referida modalidade de ensino sobreviveu à sociedade industrial. Ao longo de décadas, cursos dos diversos níveis dos sistemas formais de ensino e de treinamento foram e continuam sendo oferecidos através dela. Assim, perceber a força com que o material impresso se faz presente ao longo da história da EAD não é tarefa que possa ser julgada difícil ou de fácil contestação; basta resgatar à memória nomes de algumas as entidades que iniciaram suas práticas de EAD utilizando material impresso, como, por exemplo, no formato de módulos ou de guias de estudo, e em pouco tempo emergirão instituições de inquestionável respeitabilidade acadêmica, como é o caso da Universidade Aberta da Inglaterra ou da UNED na Espanha, apenas para citar alguns.

A urgente demanda social que evoca respostas viabilizadoras em favor da democratização do ensino e da universalização da educação formal tem desafiado a busca de novos caminhos no campo da EAD. Além desse fato, vivemos hoje no olho do furacão tecnológico que, colocando à nossa frente exigências díspares, faz com que cidadão e sociedade não se satisfaçam com formações educacionais prematuras, tal como aquelas que se limitam aos níveis da escolarização básica. O que antes era assumido como sendo o ideal da sociedade industrial - que todos soubessem ler e escrever - já não é o bastante. É preciso que o indivíduo também esteja constantemente se atualizando nas mais variadas áreas que podem vir a compor o seu preparo contínuo para participar do mundo contemporâneo profundamente tecnologizado.

No campo educacional, a EAD tem-se apresentado como uma resposta interessante ao atendimento das necessidades humanas emergentes. A variedade de recursos tecnológicos recentes soma-se ao material impresso que, até pouco tempo, fazia-se presente nos programas de EAD com exclusividade ou, ainda, combinado a alguma(s) outra(s) tecnologia(s).

Embora a diversidade de meios seja fato - cabe salientar meios que propiciam o acesso ao conhecimento por vias distintas -, o interesse em dominar a clássica tecnologia resiste e mostra-se de maneira bem evidente. Em novembro de 1997, o XXIX Seminário Brasileiro de Tecnologia Educacional, promovido pela Associação Brasileira de Tecnologia (ABT) e realizado na cidade do Rio de Janeiro, ofereceu aos participantes um conjunto de seis práticas que se referiam a temáticas específicas em EAD. Curiosamente, a prática denominada Material Didático Impresso em Educação a Distância, a qual abordou características e modos de produção, novos enfoques decorrentes das facilidades de informatização e novas formas de avaliação, foi a que teve maior procura. Na oportunidade, profissionais de todo o Brasil e de instituições estrangeiras que lá estavam demonstravam, pela expressão de seu interesse, que o material impresso continuava mantendo lugar privilegiado nos programas de EAD, motivo pelo qual ser tão relevante conhecê-lo.

Alguns anos depois, o cenário da EAD enriqueceu-se fortemente com a entrada de meios representativos da mais avançada geração tecnológica. Mesmo assim, não restaram dúvidas entre os educadores quanto à importância e o papel particularmente desempenhado por tais materiais nesse novo contexto. Quer dizer, embora o paradigma tecnológico tenha imposto uma nova lógica ao processo de construção do conhecimento, que já não mais se construiria de modo linear tal qual a que pauta(va?) a produção dos impressos, a lógica da hipertextualidade - recém estabelecida - ainda veio interagir com aquela que a antecedera. E, dessa forma, encontrava-se pertinente justificativa não só para a oferta de cursos de planejamento e desenvolvimento de material impresso para a EAD, mas também para a sua realização.

Certamente, não será corriqueiro admitir-se o material impresso como tecnologia bastante para um programa de EAD, sobretudo porque não mais se desconhece que os cursos atuais, implementados on-line, fazem uso predominante de meios informáticos e telemáticos. Além disso, o grau de conhecimento que hoje se possui acerca dos meios não possibilita mais a adoção de um olhar tão limitado. Tal fato, em nenhum grau, minimiza o valor da categoria de meios solidamente estabelecida em nossa cultura escolar, como aponta Moreira (1998). Distintas razões poderiam ser arroladas na tentativa de se explicitar por que impressos têm uma postura privilegiada no contexto da educação em geral. Grosso modo, as palavras de Patrícia Greenfield (1998) poderiam sintetizar parte nobre das contribuições dos estudiosos da área afirmando que esses materiais contribuem para a acumulação do conhecimento quando se apropriam de um modo particular de registro e, na medida em que isso envolve ações de codificação e decodificação de mensagens, eles atuam em favor da construção e da complexifixação do pensamento, pois requerem estreita relação sujeito cognoscente - material impresso.

É claro que aprendizagens relacionadas à aquisição e ao domínio do código e/ou da linguagem, particulares a qualquer categoria de meios, fornecem em algum grau base para as aprendizagens relacionadas à aquisição e ao domínio de códigos e/ou linguagens de meios de gerações diferenciadas. Na verdade, isto é pressuposto da própria ciência: se uma das características do conhecimento científico é a de ser acumulativo, como ressaltam Lakatos e Marconi (1997, p. 33), "seu desenvolvimento é conseqüência de um contínuo selecionar de conhecimentos significativos e operacionais" que possibilitam a instrumentação funcional de um corpo teórico de saber. Dessa sorte, aos conhecimentos já existentes somam-se outros seletivamente, e esse processo pode propiciar a criação ou a apreensão de novas situações, condições ou realidades. Assim, é incontestável a interconexão existente entre as tantas tecnologias: obviamente algumas delas, por terem tronco comum, tornam tais características mais facilmente visíveis ao olhar de todos; outras, por pertencerem a um grupo ou a uma categoria diferenciada de meios, impõem maiores dificuldades para tal. No entanto, ressalte-se que, embora até possam pertencer a categorias distintas, há um continuum de conhecimentos entre elas que, de alguma maneira, as interliga, e a interação sujeito cognoscente-tecnologia contribui para a formação de estruturas mentais psíquicas e cognitivas que facilitam a recepção do código e da linguagem de outras em graus igualmente diversos. Segundo Greenfield (1988, p.18-19):

"À medida que cada meio novo se destaca, os já existentes tendem a preencher novas funções. ou a se restringir ao que fazem melhor. (...) Adequadamente usados, todos os meios de comunicação, sem exceção, podem fornecer oportunidades para a aprendizagem e o desenvolvimento humanos. Deve-se determinar, agora, de que forma cada meio pode melhor ser utilizado, para que possa contribuir para um sistema criativo da multimídia educacional."

Considerando-se, portanto, contribuições dos estudiosos do assunto, podem-se elencar inúmeras razões capazes de dar ênfase a por que motivo conhecer e/ou utilizar esta ou aquela tecnologia educacional em dado contexto pedagógico. No caso em questão, pode-se dizer que o material impresso - pautado em modelo paradigmático distinto - é capaz de garantir não só o acesso ao modo de expressão da tecnologia em estudo, mas também concorre - como qualquer outra tecnologia procedente aos fins da prática educativa - para a definição e êxito do sistema de comunicação educativo. Sendo assim, grifa-se a tendência contemporânea da EAD em sobrepor tecnologias informáticas e telemáticas às que lhe são antecedentes, ou seja: o fato de hoje serem priorizadas as tecnologias eletrônicas de ponta é facilmente justificável porque encontra amparo em razões bem conhecidas e fundadas, mas isso não implica exclusão ou refutação de qualquer outra tecnologia educacional, independentemente de sua geração. O limite para a incorporação ou não de qualquer uma delas está nas suas possibilidades de contribuição para a consolidação de um processo de ensino-aprendizagem valioso.

De certo modo, tal pensamento reitera a menção feita há pouco a Greenfield, quando a autora destaca a idéia de que as tantas tecnologias apropriadas por um programa de educação devem pretender a composição de um sistema multimídia educacional - sistema porque constituído por várias partes, peças ou elementos que mantêm íntima relação entre si, reabastecendo-se e, em decorrência disso, intervindo sobre o todo; multimídia porque não se compreende que um único meio seja capaz de desempenhar todos os papéis pedagógicos previstos, uma vez que não há meio plenificado de possibilidades didático-pedagógicas ou totalmente destituído de limitações; educacional e comunicacional porque pretende, por meio da comunicação, concorrer para a formação humana, qualquer que seja a modalidade em que ela aconteça.

Assim, para que o material didático impresso continue ocupando espaço pedagógico privilegiado em um universo que se mantém em permanente construção e renovação, é preciso que não se desconsiderem as características inerentes à tecnologia de comunicação e educação, de modo a se estar seguro se ela pode responder às múltiplas tarefas que lhes são - ou podem ser - conferidas no processo de ensino-aprendizagem. Em outras palavras, é necessário saber que funções pedagógicas a tecnologia é capaz de cumprir para que, em seguida, sejam definidas aquelas que cumprirá em dada situação.

Igualmente importa averiguar a linha pedagógica adotada pelo material a fim de que haja coerência entre a proposta geral do curso de EAD e a tecnologia propriamente dita, porque a primeira interfere na tomada de decisão relativa à estrutura física da segunda - no caso, o impresso, pois, se a literatura da área rejeita a adoção de modelo rígido para produção deste tipo de material, a sua estruturação sempre deve ter como referencial a proposta pedagógica pretendida em cada caso.

Qualquer que seja o modelo de material escolhido, é elementar que a proposta viabilize ao aluno a oportunidade de construir o próprio conhecimento, o que pressupõe investimentos voltados à potencialização da interatividade do agente da aprendizagem com o conteúdo trabalhado, com o material propriamente dito, com os colegas e com seu contexto de vida.

Tendo-se sempre em mente que material impresso será escolhido em situação de EAD, todos os aspectos recém-expostos devem ser firmemente considerados. Afora isso, suas funções pedagógicas - de incentivar, informar, estimular, orientar e avaliar a aprendizagem dos alunos - devem ser procedentemente analisadas para que possam ser cumpridas nesse processo de comunicação e educação, que se pretende ativo, efetivo, estimulador e promotor do desenvolvimento das capacidades humanas.

Desse modo, as aprendizagens decorrentes de cursos de planejamento e desenvolvimento de material impresso para EAD são bem-vindas, como todas as outras efetivadas no campo da tecnologia. Mesmo que pautadas em modelos paradigmáticos distintos, podem intervir no acesso ao código e à linguagem de outras tecnologias e, além disso, ao interporem-se devidamente em programas de EAD, formarão com os demais meios o sistema de educação-comunicação planejado e almejado pelo grupo de especialistas.

Sendo, então, a tendência contemporânea em EAD sobrepor tecnologias informáticas e telemáticas às suas antecessoras - uma vez que a quantidade de benefícios das primeiras é considerável (flexibilização do tempo e do espaço, atendimento ao ritmo de aprendizagem e à motivação dos indivíduos, iniciação/refinamento das habilidades fundamentais ao ensino e à aprendizagem virtuais, por exemplo) - e não havendo incompatibildade didático-pedagógica entre elas, faz sentido manter os impressos presentes nos sistemas comunicativos em EAD, tendo em vista a contribuição que podem dar para o bom desempenho das iniciativas geradas na área da Tecnologia Educacional.

Lígia Silva Leite é pós-doutora em Tecnologia Educacional, professora do Curso de Doutorado em Tecnologia Educacional e Educação a Distância da Nova Southeastern University (EUA), professora-pesquisadora do Programa de Mestrado em Educação da Universidade Católica de Petrópolis e coordenadora do Pólo Rio da Associação
Brasileira de Educação a Distância (ABED).

Lucí Hildenbrand é doutora em Comunicação, consultora em Tecnologia Educacional, pesquisadora em Meios de Comunicação e Educação e integrante do Núcleo de Tecnologia Educacional (NUTE) da Universidade Iguaçu (Unig).
E-mail: luci.h@ig.com.br

REFERÊNCIAS

GREENFIELD, P. O desenvolvimento do raciocínio na era eletrônica: os efeitos da tv, computadores e videogames. São Paulo: Summus, 1988.


LAKATOS, E.M.; MARCONI, M.deA. Ciência e conhecimento científico. In: ______ . Metodologia do trabalho científico. São Paulo: Atlas, 1991.


MOREIRA, M.A. Os meios e os materiais impressos no currículo. In: SANCHO, J.M. (Org.). Para uma tecnologia educacional. Porto Alegre: Artmed, 1998.

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