Conteúdo Exclusivo
A prática pedagógica em educação a distância
Jovanira Lazaro, Juliane Corrêa e Leonardo Zenha
Consideramos que abordar o cotidiano da prática pedagógica dos programas de educação a distância (EAD) implica abordar a organização e o desenvolvimento do trabalho de tutoria. O tutor irá, ao participar de cursos que utilizam propostas didáticas a distância, interagir com o ambiente de ensino e aprendizagem proposto, os materiais didáticos produzidos pelos especialistas, a organização do tempo/espaço de sua própria instituição, o contexto institucional e o processo de aprendizagem de seus orientandos. Essa exposição visa a pontuar aspectos necessários à atuação de tutoria, qualificando sua intervenção pedagógica em programas de formação a distância. Inicialmente, vamos detalhar cada um desses aspectos e, em seguida, aprofundar a organização de tempos/espaços e a contextualização da prática pedagógica.
1 - O ambiente de ensino e aprendizagem proposto define o campo de atuação, a modalidade de tutoria a ser adotada e a natureza de sua atuação. Quanto ao campo de atuação, temos a tutoria de conteúdo, a tutoria de aprendizagem e a tutoria de apoio de acordo com cada proposta de ensino e aprendizagem. Quanto à modalidade de tutoria, temos a possibilidade da tutoria presencial, da tutoria postal, da tutoria telefônica ou da tutoria on-line (Peters, 2001), ou seja, a modalidade permanece vinculada ao meio de comunicação utilizado para os contatos com os orientandos. Além disso, as tecnologias de comunicação e informação utilizadas consistem em tecnologias educativas, mediações pedagógicas que determinarão o desenvolvimento de competências de conteúdo, tecnológicas e colaborativas. "Os meios de comunicação" que diferenciam as modalidades de tutoria não são apenas suportes para a entrega de conteúdo ou de informações, mas também novas possibilidades de formação e de expressão dos sujeitos da aprendizagem. A natureza da atuação da tutoria, por sua vez, dependerá da concepção pedagógica presente nos materiais didáticos. Por exemplo, materiais didáticos mais auto-instrucionais necessitam de um tutor mediador, ao passo que materiais didáticos menos auto-instrucionais necessitam de um tutor mais convencional.
2 - O material didático adotado no curso deve ser utilizado pela tutoria a partir de sua concepção pedagógica, de modo que se possa ao longo do processo detectar suas limitações e possibilidades. O tutor, ao se apropriar da estrutura e dinâmica do material a ser utilizado, tem condições de orientar o processo de aprendizagem do aluno, auxiliando-o em seu percurso e prevendo possíveis dificuldades.
3 - A organização do tempo e do espaço para o trabalho da tutoria não é algo tão simples como parece, pois implica rever a lógica de organização dos tempos/espaços educativos própria do ensino totalmente presencial. Saber administrar níveis diferenciados de presencialidade é algo novo em nossa cultura educacional. Romper com a lógica linearizada de tempo exige rever a forma de administrar o nosso próprio tempo. E, mais ainda, rever e negociar o tempo que compartilhamos nas instituições em que estamos inseridos.
4 - O reconhecimento do contexto institucional em que nossos orientandos estão inseridos possibilita a formação de competências individuais e institucionais, qualificando, assim, o campo profissional. A identificação da maneira como administram o tempo e o espaço, bem como a articulação com a formação pedagógica a distância, é imprescindível para o sucesso do curso.
5 - O acompanhamento do processo de aprendizagem é o aspecto mais enfatizado nos cursos de formação a distância. Consideramos que consiste em um aspecto fundamental, mas que perde o valor na medida em que é abordado isoladamente, pois o sujeito se qualifica dialogando com um determinado contexto, com determinadas práticas profissionais, com determinada organização e uso dos tempos e espaços. Portanto, se quisermos desenvolver um processo de formação significativo, que ultrapasse a mera certificação, será necessário dialogar com os demais aspectos, inclusive para que realmente possamos intervir e auxiliar o orientando em suas dificuldades de aprendizagem e em seus dilemas profissionais.
Os aspectos que vamos aprofundar serão abordados a partir do projeto de formação superior para professores da rede pública do estado de Minas Gerais, projeto este denominado Veredas. Ele englobou vários pólos em Minas Gerais e, em Belo Horizonte, um dos pólos foi a UFMG com 564 alunas. O sistema de tutoria que acompanha essas alunas conta ao todo com 40 tutores e cada tutor acompanha em média 15 alunas, que estão inseridas em escolas de diferentes locais da região metropolitana de Belo Horizonte. Assim, descreveremos a vivência de duas ações específicas do cotidiano dos tutores: a organização do tempo e espaço na sua própria instituição de trabalho e a contextualização da prática pedagógica dos seus orientandos.
Organização e acompanhamento dos tempos e espaços no sistema de tutoria
Para a organização do tempo/espaço de atuação da tutoria, é necessária a definição de uma agenda previamente negociada e de espaços para as diferentes atividades dos encontros presenciais.
· Definição de Agenda: na organização do tempo curricular para cada atividade do projeto, é indispensável a definição de uma agenda. Nesse sentido, considera-se o cronograma de atividades pré-definido pela Coordenação Geral do curso e encaminha-se para tutores e cursistas no início de cada módulo visando ao planejamento das atividades do programa. Além disso, busca-se organizar e acompanhar os tempos destinados às várias etapas do trabalho pedagógico, tais como as atividades presenciais (encontros das professoras/cursistas com o tutor e demais especialistas nas semanas presenciais) e o acompanhamento da prática pedagógica das cursistas em suas escolas e das atividades culturais promovidas pelo programa.
· Definição do espaço para realização dos encontros presenciais: desde o início, a Coordenação esteve empenhada em definir um espaço físico único que possibilitasse reunir todos os grupos para a realização das atividades presenciais, pois isso facilitaria a organização e o acompanhamento das mesmas. Infelizmente, até a presente data, isso não tem sido possível devido à insuficiência na quantidade de salas para dividir as 564 professoras/cursitas em grupos que variam de acordo com o formato de cada atividade. Em função disso, os momentos presenciais vêm sendo realizados em vários prédios. O espaço no qual ocorrerá a atividade presencial do programa (encontros mensais, semana presencial, etc.) depende da disponibilização dos prédios nas datas previstas. Com relação ao formato dos encontros, a situação não é diferente, uma vez que depende do tipo de atividade a ser desenvolvida (encontros mensais com o tutor, orientações temáticas, revisão dos conteúdos). Para essa organização, deve-se levar em consideração o número de salas de aula, de auditórios, de carteiras, de equipamentos, etc.
Descreveremos a seguir cada atividade desenvolvida e suas implicações quanto ao uso dos espaços:
1 - Nos encontros mensais com o tutor, as professoras cursistas são distribuídas nos 40 grupos. Cada grupo de cursitas desenvolverá o trabalho com seus tutores. Portanto, é necessário reservar 40 salas.
2 - Nos encontros de orientação temática, o número de salas e carteiras é definido com base no total de cursistas que estão pesquisando aquele tema. Nessa direção, divide-se o total de cursistas daquela temática em grupos de até 40 cursistas. Cada grupo recebe orientação de um especialista do tema.
3 - Nos encontros de revisão dos conteúdos de cada módulo, a quantidade de salas a serem utilizadas depende do número de componentes curriculares, pois para cada componente curricular são convidados dois especialistas. Essa divisão de especialistas em cada componente visa a possibilitar que todas as cursistas possam receber orientação em todos os conteúdos abordados. Nesse formato ocorre uma redução na quantidade de salas, porque as cursistas estão distribuídas em 10 grandes grupos.
4 - No que se refere à utilização de outros espaços, em geral, a quantidade de equipamentos especiais e o espaço físico do laboratório de informática, da sala de projeção de vídeo, do refeitório e da biblioteca são insuficientes para atender as necessidades dos tutores e das cursistas de forma coletiva. Por isso, é preciso organizar escalas para possibilitar o uso desses equipamentos e espaços. Cabe a equipe da tutoria elaborar, divulgar e acompanhar o funcionamento dessas escalas.
Os tutores são orientados a preencher os relatórios das oficinas realizadas com as cursistas. As atividades desenvolvidas e descritas nesses relatórios têm por finalidade acompanhar a utilização do tempo e do espaço. Vale lembrar que trabalhar nessa perspectiva de mudanças organizacionais implica romper com antigos paradigmas educacionais, ou seja, abandonar velhos modelos orientadores da prática pedagógica para assumir uma visão do paradigma da transformação, cujo modelo orientador caracteriza-se por ser aberto para acolher mudanças de tempo/espaço.
Contextualização da prática pedagógica
O sistema de tutoria precisa, inicialmente, mapear o campo da ação profissional dos sujeitos envolvidos em seu programa de formação de modo que suas estratégias de ensino e aprendizagem correspondam às possibilidades institucionais dos sujeitos. Um dos objetivos da contextualização da pratica pedagógica é tentar identificar as redes cotidianas dos sujeitos, a estrutura física, os recursos, a organização do trabalho escolar, a influência do espaço físico na prática pedagógica, o que qualifica e o que desqualifica esses sujeitos em seu fazer pedagógico.
A prática pedagógica no contexto educacional - seja presencial, semipresencial ou a distância - não pode estar desvinculada das práticas dos sujeitos envolvidos no processo. Eles se relacionam entre si não apenas trocando informação, mas estando entrelaçados em uma prática social. O aluno e o professor de EAD também estão ligados nessa rede, sendo possível que se relacionem de modo a contribuir para sua formação e contemplar o que vivenciam.
Muitas vezes, os tutores apresentam propostas que buscam incentivar as práticas de leituras e o uso das bibliotecas pelos alunos da EAD, mas desconhecem que, na verdade, esses espaços não existem no cotidiano do aluno ou existem precariamente. O tutor da EAD que propõe novas atividades para o aluno como forma alternativa para inovar o trabalho do seu cotidiano precisa reconhecer o cotidiano e as práticas desse aluno. Segundo Domenech e Vinas (1999, p. 17), "la escuela es un lugar, un edificio, um espaco delimitado: a la escuela hay que ir".
No Projeto Veredas, um dos itens de avaliação consiste no acompanhamento da pratica pedagógica da aluna em sua sala de aula. O acompanhamento da prática pedagógica engloba como pontos de avaliação não apenas a observação do contexto de sala de aula e os métodos e técnicas que a professora utiliza em seu cotidiano, mas também a estrutura e a dinâmica da instituição, bem como a maneira como a professora dialoga com essa estrutura.
Em todo o trabalho, o nosso olhar voltou-se para a escola em suas dimensões material, organizacional e social, procurando identificar através da coleta de imagens e de depoimentos dos professores e gestores sobre o contexto de cada instituição. Esses dados foram agrupados e disponibilizados em um site (www.canalveredas.radio.fae.ufmg.br ) com um conteúdo de fotos e entrevistas e foram lincados a partir da planta da escola, na tentativa de oferecer ao leitor a visualização do espaço físico de cada escola. Além disso, as escolas foram agrupadas no mapa da cidade de acordo com cada regional, possibilitando a identificação das redes escolares em cada microrregião.
De acordo com Domenech (1999), a identificação dos espaços educativos permite que realizemos a classificação de alguns elementos estruturais, como espaços docentes, espaços recreativos, espaços de serviço, espaços de circulação, espaços de comunicação e coletivos. Essa classificação auxilia-nos na compreensão do uso desses espaços e de sua adequação à proposta pedagógica. Em nosso trabalho, foi possível adequar as classificações aos espaços observados da seguinte forma: área aberta, biblioteca, laboratório de informática, cantina, quadras, salas de aula e sala dos professores procurando perceber a existência desses espaços e suas reais condições de uso.
Alguns dados que obtivemos e detalhamos possibilitaram-nos encontrar situações de áreas abertas que eram totalmente mal utilizadas, restando, às vezes, imensos matagais ou sendo utilizadas como estacionamento. Bibliotecas que são utilizadas pelos alunos, pelos professores e pela comunidade e outras que estão totalmente fechadas ou que são depósitos de livros. Escolas nas quais não existiam laboratório de informática e outras que possuíam todos os equipamentos e não eram utilizados; ou outras que tinham os equipamentos, e esses eram utilizados por todos da instituição. Cantinas que não possuíam espaços para os alunos sentarem e outras que os espaços são reduzidos ou inexistem. Quadras que são cobertas com arquibancadas e com um piso adequado e outras que só possuíam o piso ou, até mesmo, escolas que não possuíam esses espaços. Espaços para vídeos independentes com ambientes alternativos para os alunos e outros espaços improvisados para os vídeos.
Além da identificação dos espaços, foi possível perceber a utilização diferenciada de equipamentos presentes nesses espaços, como coletores de lixo para reciclagem que algumas escolas utilizavam em prol da própria escola, para obtenção de recursos extras e para compra de materiais dos alunos, e outras em que o próprio coletor era um entulho para escola.
"A organização e o uso do espaço físico, seja da casa de moradia ou de prédios públicos como escolas, presídios, clubes, repartições, etc., também desvendam a história das sociedades e expressam valores, comportamentos e relações de grupos sociais." ( Mod. IV, v.1, p.192)
Nessa perspectiva, a contextualização da prática pedagógica da tutoria pode auxiliar na identificação dos aspectos que implicam a qualificação ou a desqualificação desses sujeitos a partir do uso que fazem de seus espaços educativos.
Considerações Finais
Nas diferentes unidades escolares, pensar o uso de tempos e espaços educativos é um desafio que independe da estrutura presencial ou a distância. É necessário alguém que possibilite a mediação entre o sistema proposto, o ideal e o real, as relações cotidianas, de modo a adequar as estratégias e orientar os procedimentos. Enfim, alguém que interaja com esse outro buscando a sua inclusão.
Devemos lembrar que os ambientes e os materiais, por mais apurados que sejam, não são auto-suficientes nem auto-explicativos. E, mesmo assim, os sujeitos sociais estarão permanentemente reinterpretando e definindo novos sentidos, já que faz parte da interação humana a negociação de sentidos. Inclusive, essa negociação é extremamente produtiva, pois o seu processo já envolve uma competência comunicativa, de relacionamento, de gestão e, com certeza, produz a busca de novas estratégias, de novas decisões, de novas maneiras de organizarmos o par tempo/espaço subjetivo e coletivo.
Precisamos caracterizar a rede institucional tendo em vista o seu clima e cultura institucional e identificar como os profissionais negociam através de estratégias comunicativas (internas/externas) a construção da prática pedagógica, o uso dos espaços e tempos educativos. O grande ganho dessas ações seria propiciar o desenvolvimento de redes colaborativas de aprendizagem, redes que se mantivessem nas relações cotidianas de trabalho dos diferentes sujeitos envolvidos. Acreditamos que a alternativa seria promover o diálogo permanente com o contexto de vida dos participantes, com a realidade de suas práticas pedagógicas, com sua organização de tempo/espaço, qualificando, assim, o seu processo de formação.
Jovanira Lazaro é pedagoga e membro da Cátedra da Unesco de EAD.
E-mail: Jolasa@fae.ufmg.br
Juliane Corrêa é professora da Faculdade de Educação da UFMG, membro da Cátedra da Unesco de EAD e coordenadora de tutoria do Projeto Veredas.
E-mail: Juliane@fae.ufmg.br
Leonardo Zenha é graduando de Pedagogia/ FAE/UFMG, monitor do Projeto Veredas.
E-mail: Leozenha@fae.ufmg.br
REFERÊNCIAS
ALAVA, S. Ciberespaço e formações abertas: rumo a nova práticas educacionais? Porto Alegre: Artmed, 2002.
DOMÉNECH, J.; VIÑAS, J. La organizacion del espacio y del tiempo en el centro educativo. 3. ed. Barcelona: Gráo,1999.
LITWIN, E. Educação a distância: temas para o debate de uma nova agenda educativa. Porto Alegre: Artmed, 2001.
PETERS, O. Didática do ensino a distância. São Leopoldo, RS: Ed. UNISINOS, 2001.
SECRETARIA DA EDUCACÃO DE MINAS GERAIS. Formação superior de professores - Veredas - Módulo IV, Volume 1, 2003.
|
|