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A teoria das inteligências múltiplas dez anos depois

Kátia Stocco Smole

A autora faz uma reflexão sobre os rumos tomados pelos estudos da teoria que foi lançada por Howard Gardner na década de 1980 e que chegou ao Brasil em 1994 com a publicação pela Artmed de Estruturas da mente

Há pouco mais de 10 anos, em 1994, chegava ao conhecimento dos educadores brasileiros a teoria das inteligências múltiplas. Diversos pesquisadores no Brasil, estudiosos da epistemologia e das ciências cognitivas, contribuíram para a divulgação dos trabalhos de Howard Gardner entre nós. Merecem destaque, sem dúvida, os trabalhos de Nilson José Machado, da Faculdade de Educação, e de Fredric Litto, da Escola do Futuro, ambos da Universidade de São Paulo.

Desde então, tivemos muitas fases do estudo dessa teoria no Brasil. Passamos da euforia que caracteriza uma nova idéia em educação a um certo esquecimento para, então, fazer emergir novos estudos, outras pesquisa, buscar contradições, selecionar o que de mais significativo pode ser a contribuição de uma teoria para as questões educacionais. Mas, afinal, que rumos tomaram os estudos sobre a teoria das inteligências múltiplas? Neste artigo, pretendo traçar um breve panorama nesse sentido.

Podemos dizer que, desde 1996, os trabalhos de Gardner e outros pesquisadores tomaram quatro grandes direções. A primeira delas foi um debruçar-se sobre a própria teoria e seus fundamentos. Nesse foco de estudos, foram investigadas mais duas inteligências: a naturalista, incluída em 1999, e a existencialista, que continua candidata, uma vez que, nas palavras do próprio Gardner, "ainda são procuradas evidências no cérebro de uma inteligência que busque explicações para grandes questões, questões mais existenciais, ligadas à vida, à morte, ao ser e ao crer". Nesse aspecto, as pesquisas têm-se dedicado a aprofundar a compreensão do funcionamento da inteligência humana como um espectro de competência, vinculado a um potencial biológico, e os desdobramentos disso para a formação humana não apenas na escola, mas também na vida adulta profissional.

Um terceiro foco de pesquisa conduzida pelo próprio Gardner analisa pessoas com um determinado perfil de inteligência, buscando entender por meio de suas biografias ou de entrevistas como suas mentes funcionavam à luz da teoria das inteligências múltiplas. O interesse crescente de Gardner por entender como se comporta a mente adulta em função de diferentes perfis da inteligência encaminhou seus trabalhos para uma discussão sobre ser ou não possível mudar a mente das pessoas. No momento atual das investigações sobre esse assunto, ele estuda as resistências às mudanças, o que faz um líder provocar mudanças no pensamento de outras pessoas e as características que deveriam ter "as cinco mentes do futuro". Esse estudo, fazendo uma relação superficial, para não dizer arriscada, assemelha-se aos estudos sobre atitudes e competências.

Para Gardner, a capacidade de dedicar-se profundamente a reflexões e estudos (mente disciplinada), a capacidade de sintetizar e decidir (mente sintetizadora), o desejo por desafios e pelo desenvolvimento do novo (mente criadora), o respeito pela diversidade (mente respeitosa) e a preocupação com valores e princípios (mente ética) formariam o perfil de mente a ser desenvolvido para um adulto do futuro. Ele próprio é categórico ao dizer que são estudos muito recentes, passíveis de discussão, e que se trata de um estudo ainda em processo, cujo sentido, a seu ver, é delinear a organização da mente para que possa melhor entendê-la como estudioso apaixonado pelo assunto.

Finalmente, o quarto foco das pesquisas derivadas do trabalho inicial de Gardner - e talvez aquele que mais diga respeito a nós, educadores - centrou-se nos usos e nas interpretações da teoria das inteligências múltiplas para a educação em especial. Durante os anos de 1990, a equipe do Projeto Zero, em Harward, liderada por Gardner e David Perkins, não apenas acompanhou as diferentes interpretações que educadores deram às implicações educacionais dessa teoria, como também aprofundaram estudos sobre os sentidos da aprendizagem baseados na multiplicidade da inteligência. Perkins, em particular, aprofundou estudos em uma área conhecida como aprendizagem profunda e ensino para a compreensão, que Gardner já havia mencionado em seu livro de apresentação da teoria, Estruturas da mente, publicado nos Estados Unidos em 1984 (Gardner, 1994).

A equipe do Projeto Zero dedicou-se a pensar os princípios que teria uma educação com um de seus pilares na teoria das inteligências múltiplas. Destaca-se o reforço a alguns princípios anteriormente estabelecidos nas aplicações educacionais e esclarecem-se outros. Em primeiro lugar, reforça-se a idéia de que, em sua origem, essa teoria não é uma linha pedagógica e que sempre há muita distância entre uma teoria e sua utilização em sala de aula. Conforme já se sabia, Gardner inicialmente não pensou na escola quando estudou as capacidades e estruturas da mente. Os educadores é que perceberam como e por que a teoria das inteligências múltiplas poderia ajudar em sua prática escolar e com ela se encantaram. No entanto, os estudos realizados não dizem nada sobre tempos de aula, sobre educação de superdotados, sobre duração do ano letivo ou sobre currículos.

Duras críticas foram feitas a práticas educacionais que dizem basear-se na teoria das inteligências múltiplas, entre elas a crença de que existe um modo de ativar ou exercitar as inteligências; a confusão feita com as inteligências intrapessoal e interpessoal e aspectos de auto-ajuda, auto-estima ou inteligência emocional; a tendência a rotular ou classificar pessoas em termos de suas inteligências e a tentativa de vincular todos os conteúdos a serem ensinados com todos os tipos de inteligência. Na verdade, Gardner e Perkins chegam à conclusão de que, em se tratando das interferências ou interfaces dessa teoria na educação, o melhor seria estabelecer três pressupostos básicos para as escolas que desejam usa-la em suas bases pedagógicas: não somos todos iguais, não temos todos o mesmo tipo de inteligência, a educação pode ser mais eficaz se isso for levado em conta. Na prática, as mudanças que esses três princípios de aparência tão simples trazem são bastante profundas. Elas sinalizam que, tomando como pressuposto a multiplicidade da inteligência, é possível entender que nossos alunos aprendem de múltiplas formas e que, portanto, nossas aulas não devem pautar-se apenas em uma ou duas formas de ensinar.

Sob esses princípios, a teoria das inteligências múltiplas subsidiaria ainda boas discussões sobre o tratamento da diversidade em sala de aula, mesmo com alunos que não apresentem nenhuma síndrome, nenhum déficit, nenhuma deficiência aparente. Somos todos diferentes, aprendemos de maneiras diferentes, merecemos ser considerados em nossas diferenças. Todos podemos aprender - esta é a mensagem indireta desses pressupostos.

Por fim, o último reduto dos estudos atuais sobre a teoria das inteligências múltiplas e a educação relaciona-se à avaliação escolar. Nessa perspectiva, a avaliação funciona como uma outra lente, que permite focalizar as competências que o aluno tem mais desenvolvidas e refletir sobre elas para melhorar outras nas quais seja menos desenvolvido. Isso significa construir um sistema de trabalho com o aluno com um conhecimento mais amplo e profundo do seu perfil para avaliar as necessidades locais e elaborar estratégias de trabalho diferenciadas em função desse conhecimento.

Como é possível perceber, ainda que a teoria das inteligências múltiplas tenha deixado a mídia, se comparada aos primeiros tempos, seus estudos prosseguem e avançam. Mesmo na mídia brasileira ela ainda tem espaço. Apenas em 2005, três grandes revistas de circulação nacional veicularam reportagens sobre o tema. O fato é que, com a concordância de alguns, as dúvidas e as discordâncias de outros, a concepção da multiplicidade da inteligência, de que a inteligência esteja ligada à capacidade de resolver problemas, desenvolver projetos que sejam socialmente úteis, significativos, e de que essa capacidade não se mede nem compara, porque é única em cada pessoa, ganhou espaço na escola e fora dela, permitindo que refletíssemos de modo muito particular sobre questões que intuitivamente já percebíamos e que ganharam fundamentos por meio dessa teoria.

Kátia Stocco Smole é doutora em Educação e coordenadora do Mathema Formação e Pesquisa.
E-mail: kátia@mathema.com.br
Site: www.mathema.com.br

REFERÊNCIAS

GARDNER, H. Estruturas da mente. Porto Alegre: Artmed, 1994.



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