Artmed outros sites artmed
Pátio eNS
         
Revista Pedagógica Educação Infantil Ensino Médio
         

Conteúdo Exclusivo

O global e o local, sem crise de identidade

Paulo M. Périssé

O termo globalização surgiu no final do século passado para designar o processo de encolhimento do mundo, anunciado nos anos 60 por Marshall McLuhan, que cunhou em seu livro Understanding media a expressão "aldeia global". Desde então, a palavra já abusou do direito de sofrer deslocações semânticas de ordem ideológica, política, econômica e social. Outro dia, minha querida amiga Maria Helena Novaes Mira surpreendeu-me com uma inesperada indagação: "Você sabe o que é globalização?". Diante da minha visível confusão momentânea, ela se adiantou em responder: "É a morte da Princesa Diana". Franzi a testa, ainda mais perplexo, esperando a explicação. Ela prosseguiu: "Uma princesa inglesa, em companhia do namorado egípcio, dentro de um carro de fabricação alemã, com o motor feito na Holanda, dirigido por um motorista belga que bebeu whisky escocês, sofreu um acidente, em um túnel francês, ao tentar fugir de paparazzi italianos em motos japonesas e foi socorrida por um médico americano". Se, por um lado, a palavra já virou até piada, é certo também que já se foi o tempo em que nos referíamos ingenuamente à globalização como um fenômeno monolítico. Hoje, bem mais esclarecidos, reconhecemos a polissemia do termo e já conseguimos enxergar a complexidade multifacetada desse inusitado fenômeno que caracteriza, talvez melhor que qualquer outro, a época em que vivemos. Assim, não faz mais sentido falar contra ou a favor da globalização, sem antes qualificar de que globalização falamos.

Neste artigo, discuto o conceito de Educação Global, como denominam os norte-americanos (Pike, 1996), ou Educação Planetária, como preferem os franco-canadenses (Selby, 1993), que justificam tal opção em face de global ser um conceito em francês ligado à totalidade - aliás, como em português. Por essa razão, optamos no Projeto The Global School®, pilotado pela Escola de Educação Internacional da Bahia, pela tradução direta da expressão francesa. O Dicionário Atual em Educação, de Renald Legendre (1993, p. 448-449), esclarece que a Educação Global ou Planetária "tem por finalidade favorecer nas pessoas a compreensão das múltiplas dimensões do mundo atual e do futuro e a participação eficaz dos desafios inerentes". Assim, fundamenta-se nos princípios do universalismo, da pluralidade, da diversidade, adotando o enfoque sistêmico das realidades complexas, das relações e das interações nas perspectivas histórica e planetária. Caracteriza-se por visar a uma melhor compreensão dos diferentes sistemas interligados, físicos, biológicos, sociais, econômicos, políticos e informáticos, dando uma atenção especial a diferentes culturas e civilizações. A conseqüência dessa abordagem planetária da educação é a adaptação dos currículos escolares, demasiadamente presos às políticas e ideologias do Estado-nação, bem como às novas realidades contemporâneas (Boaventura e Périssé, 1999).

Como corrente de pensamento e ação, a educação na perspectiva planetária repousa em convicções e valores humanos, permitindo uma interpretação do mundo que nos envolve com seus problemas e desafios. Não se trata, contudo, de mais uma teoria, nem de uma disciplina didática, nem tampouco um modelo, e sim de uma corrente de pensamento, uma abertura maior do currículo que influencia e harmoniza métodos, enfoques, conteúdos de ensino e aprendizagens, de modo a desenvolver nos educandos uma tomada de consciência da interdependência de tudo e de todos, um senso crítico dos desafios da mundialização, a fim de que possam organizar conhecimentos, habilidades, valores e atitudes para o tratamento dessas questões (Hrimech e Jutras, 1997). Dá-lhes ainda a oportunidade de pensar e agir como cidadãos responsáveis, preocupados em construir um mundo melhor para si mesmos e para todo o planeta. O enfoque da Educação Planetária, adotado no Projeto The Global School®, está em sintonia com os princípios fundamentais da Carta da Terra e baseia-se em cinco perspectivas, denominadas de janelas: a paz, os direitos humanos, o meio ambiente, o desenvolvimento sustentável e a compreensão ou o humanismo internacional (Périssé, 2001). Apresento a seguir algumas justificativas de cada janela que, em conjunto, baseiam-se na convicção de que um outro mundo é possível, se fizermos da reflexão acompanhada de ações transformadoras um projeto de vida.

As cinco Janelas da Educação Planetária

Educação para a Paz

A violência está cada vez mais banalizada. Temas violentos são explorados irresponsavelmente pela mídia como meio de incrementar seus lucros. Nosso vocabulario diário é rico em palavras que evidenciam o culto pela violência e pobre em termos que celebram a paz. O verbo "pazear", por exemplo, não é conhecido nem por professores de português. Por outro lado, verbos como matar, destruir e agredir são conjugados até pelas crianças com freqüência e naturalidade. É necessário desenvolver uma cultura antagônica para neutralizar essa tendência. A paz não é algo que surge do nada, isto é, se nada fizermos haverá paz. Deve haver uma intencionalidade de educar as pessoas para a resolução pacífica de conflitos e para ações baseadas na reflexão e na razão. Tal esforço deve começar na família e continuar durante todo o percurso escolar do cidadão. É mister estabelecer uma cultura em que a noção e o sentimento de ser pacífico seja valorizado e cultivado. O objetivo da educação para a paz é criar uma consciência de paz e solidariedade, uma disposição para que as pessoas relacionem-se e interajam harmoniosamente consigo mesmas e com os seus semelhantes.

Educação para os Direitos Humanos

Vivemos um momento de grande desafio para as gerações futuras. A proliferação de flagelos mundiais, como o tráfego de mulheres e crianças, a prostituição infantil, as desigualdades sociais, a corrupção, as guerras civis e entre países motivados pela ganância e pelo poder, o desrespeito ao privilégio de cada um defender suas idéias e de ter suas próprias convicções políticas e religiosas, para citar apenas alguns, coloca em risco a dignidade da família humana. Portanto, deve haver um esforço intencional de educar as pessoas para conhecerem e defenderem seus direitos, ao mesmo tempo que defendem e garantem os direitos dos demais. É preciso estabelecer uma cultura de não-opressão, que valorize e cultive os direitos universais, a fim de garantir que todas as pessoas, em qualquer parte do mundo, tenham uma vida digna e feliz.

Educação para o Meio Ambiente

O ambiente é base da vida e fonte de encanto e inspiração.Todas as pessoas, inclusive das gerações futuras, têm direito a um ambiente de convívio, trabalho e lazer que seja harmonioso e saudável. A natureza não é algo separado de nós e nela tudo é interdependente. Assim, os recursos ambientais devem ser utilizados com respeito e sabedoria para que o sistema permaneça em equilíbrio. É necessário compreendermos nosso lugar de humanos e nossa responsabilidade pelas demais espécies vivas, preservando a diversidade, a harmonia e a beleza do universo. Em um sentido mais estrito, é preciso que aprendamos, enquanto sociedade, a nos preocupar não só em conservar, mas também em reparar, sempre que possível, as áreas agredidas, mesmo quando o dano não tenha sido causado por nós.

Educação para o Desenvolvimento Sustentável

Desenvolvimento sustentável significa que o progresso deve atender às necessidades da geração presente, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atenderem às suas. O termo desenvolvimento sustentável é, de certa forma, redundante. O desenvolvimento que não é sustentável não pode ser considerado desenvolvimento. Uma sociedade desenvolvida deve ter consciência da diferença entre a necessidade e o desejo, procurando atender à primeira com a preocupação de não comprometer egoisticamente a qualidade de vida das gerações futuras. A educação para o desenvolvimento sustentável tem por objetivo criar uma cultura que busque o avanço tecnológico e a melhoria da qualidade de vida atual de forma responsável, ou seja, levando em conta não só os benefícios, mas também os possíveis prejuízos sociais e ambientais decorrentes dos mesmos, tanto a médio quanto a longo prazos.

Educação para o Humanismo Intercultural

Todas as culturas são igualmente valiosas e proporcionam uma perspectiva ímpar de visão do mundo. O humanismo intercultural inspira-se nos ambientes cultural, lingüístico, espiritual, social e histórico em que vivemos e no orgulho pela nossa herança nacional. Sem nenhum comprometimento da fidelidade à nossa própria cultura, podemos e devemos acolher com simpatia os ensinamentos e os valores do patrimônio cultural de outros povos e nações. O objetivo da educação para o humanismo intercultural, muito mais do que fomentar a mera tolerância da diversidade, é ressaltar a riqueza e a perspectiva de cada cultura, de forma a permitir a percepção de semelhanças e convergências, tanto quanto de diferenças e possíveis oposições. É preciso conscientizar as crianças e os jovens a respeito da complementaridade entre as diversas manifestações culturais e da futilidade que é estabelecer entre elas uma hierarquia de avanço ou importância. Nesse sentido, essa janela compreende dois aspectos complementares:

a) a valorização de todas as matizes do patrimônio local;

b) a investigação de outras culturas, de modo a enriquecê-lo com experiências diferentes.

A educação, em uma perspectiva planetária, comporta ao mesmo tempo três dimensões: a dimensão intrapessoal, a dimensão interpessoal e a dimensão social.

. a dimensão intrapessoal compreende o esforço pessoal interior que visa ao autoconhecimento e à auto-afirmação, bem como o pleno desenvolvimento dos potenciais individuais em harmonia interior;

. a dimensão interpessoal compreende o processo de criação de relações igualitárias e de respeito mútuo, de apreciação das diferenças e de cooperação;

. a dimensão social compreende o processo que conduz à compreensão inter e transcultural e ao engajamento no projeto de construção de uma sociedade de paz e de solidariedade.

Ao contrário do que alguns possam equivocadamente pensar, a educação de uma perspectiva planetária não tem por objetivo fazer com que os valores nacionais e regionais apaguem-se ou que as identidades fundam-se em um padrão amorfo e sem colorido próprio (Lessard, 1998; Lessard, Desroches e Ferrer, 1997). Portanto, estes não desaparecem. Muito pelo contrário, são realçados. "Pensar globalmente e agir localmente", assim como "pensar localmente e agir globalmente", não são cenários mutuamente excludentes, mas aninhados e complementares.

O conceito de Educação Planetária não é uma invenção do Projeto The Global School®. Quando foi incorporado ao Projeto em 1997, essas idéias já eram bastante divulgadas nas universidades do leste do Canadá. A contribuição original do Projeto foi adaptá-lo para uma escola de Educação Infantil e Fundamental. Até então, não havia um trabalho sistemático centrado nas cinco perspectivas, com crianças de dois a dez anos. Na prática da Escola de Educação Internacional da Bahia, cada janela da Educação Planetária é celebrada com uma periodicidade diferente. Por exemplo, a Educação para a Paz acontece mensalmente, todo dia 13 de cada mês; a Educação para os Direitos Humanos ocorre toda segunda-feira, e a Educação para o Meio Ambiente é celebrada todo dia 9 de cada mês e durante todo o mês 9 (setembro). A periodicidade de cada janela foi estabelecida no Projeto Político-Pedagógico (Projeto The Global School®, 2003), de modo a atender à realidade específica de nossa comunidade escolar. Durante o período em que se celebra cada janela, sua temática inspira as atividades de aprendizagem que são desenvolvidas. Assim, a título de ilustração, o décimo quarto artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos (Direito a asilo) pode servir de pano de fundo para a Matemática, para a Língua Portuguesa, para as Ciências Naturais e Sociais. Porém, não são apenas as crianças que participam da Educação Planetária. As cinco janelas fazem parte intrínseca da identidade cultural da escola, de tal forma que toda a comunidade - educadores, famílias e funcionários - compartilha com as crianças dessa aprendizagem.

Carbonell (2003)denunciou recentemente a falta de identidade própria das escolas, que estão "a cada dia mais clonadas", ou seja, mais uniformes e sem originalidade. Até cinco anos atrás, quando o Projeto The Global School® foi implantado, a idéia de educação internacional que tínhamos aqui no Brasil era associada a escolas americanas, britânicas, francesas, suíças e alemãs, que valorizam a cultura de suas bandeiras, educando brasileiros culturalmente ambíguos e possivelmente confusos. O Projeto The Global School® possui um nome em inglês unicamente porque se trata da língua mais falada no mundo e essa é uma realidade acima de contestação. No entanto, a Escola de Educação Internacional da Bahia é uma escola de educação internacional com as cores nacionais. Sua identidade é brasileira, nordestina e baiana, com muito orgulho!

Paulo Périssé é doutor em Psicologia pela USP/SP e coordenador do Projeto The Global School.
E-mail: pperisse@globalschool.com.br

REFERÊNCIAS

BOAVENTURA, E.; PÉRISSÉ, P. Educação e globalização: uma perspectiva planetária. Ensaio: avaliação e políticas públicas em educação, Rio de Janeiro, v.7, n.22, p.83-89, jan./mar. 1999.


CARBONELL, J. (Org.). Pedagogias do século XX. Porto Alegre: Artmed, 2003.


Carta da Terra. Disponível em www.earthcharter.org


HRIMECH, M.; JUTRAS, F. L'éducation dans une perspective planétaire: une vision d'avenir pour l'éducation. In: Défis et enjeux de l'éducation dans une perspective planétaire. Sherbrooke: Édition du CRP, 1997.


LEGENDRE, R. Dictionnaire actuel de l'education. 2e édition, Guérin-Eska, 1993.


LESSARD, C. Globalisation et éducation. Conférence d'ouverture du forum Éducation et Dévelopment - Éducation, dévelopment, coopération et recherche dans le context de la mondialization, Faculté des Sciences de l'Éducation, Université de Montréal, 26-27 de março, 1998.


LESSARD, C.; DESROCHES, F.; FERRER, C. Pour un monde démocratique: l'éducation dans une perspective planétaire. Revue des sciences de l'éducation, número temático "L'éducation dans une perspective planétaire", XXXIII (1), 1997.


MISGELD, D. L'education mondiale dans une perspective locale. Revue des sciences de l'éducation, número temático "L'éducation dans une perspective planétaire", XXXIII (1), 1997.


PÉRISSÉ, P. Educação Planetária: uma experiência brasileira de educação para a paz e para os direitos humanos. Trabalho apresentado durante o Fórum Mundial de Educação. Porto Alegre, 24 a 27 de outubro, 2001. Disponível em www.globalschool.com.br/paulo.htm


PIKE, G. Perceptions of Global Education in Canada. Orbit: On Becoming a Global Citizen, v. 27, n. 2, 1996.


PROJETO The Global School® (2003) Projeto Político Pedagógico da Escola de Educação Internacional da Bahia (1997-2003). Mimeo.


SELBY, D. Global Education in the 1990's: problems and opportunities. Global Education, p. 12-30, 1993.

ver todo conteúdo exclusivo »

Busca Rápida

Enquete

O que você achou da última Patio Pedagógica?

Veja o resultado

Newsletter Pátio

Cadastre-se e receba!

Binario Internet© 2006. Artmed Editora S.A. Todos os direitos reservados.