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A importância do ensino da Língua Portuguesa no processo de inserção de migrante em grandes cidades

Nilce da Silva

Este artigo apresenta alguns questionamentos a respeito da importância da escola e do ensino da Língua Portuguesa para adultos migrantes em situação de pouca escolarização[1]. O contraponto de nossa reflexão é uma pesquisa realizada com brasileiros supra-escolarizados em Paris em situação de pouca escolarização em Gotemburgo.

O material produzido pela Previdência Social e pelo UNICEF fala da situação do trabalho infantil em partes do nordeste brasileiro. Mostra-nos como nossa sociedade tolera a exploração das crianças, abreviando o seu tempo de brincar e de estudar das mesmas, comprometendo o seu futuro. Alguns dos sujeitos desta pesquisa tinham poucas possibilidades de vida digna em seus locais de origem. Então, partir para São Paulo torna-se uma possibilidade.

Para os migrantes nessa megalópole, e para as brasileiras nordestinas casadas com suecos - para obterem a permissão de emigrar -, o fator econômico, a luta pela sobevivência no cotidiano, expulsou essas pessoas de suas terras. Com os brasileiros em Paris, o fator econômico não foi o motivo principal que os levou a deixarem o Brasil. Destacamos a ditadura militar e a possibilidade de estudos no exterior. Nascem, assim, dois fenômenos semelhantes: a criação de uma fábrica de iletrismo na França, e outra, de analfabetismo, aqui.

Bernard Lahire (1999) afirma que, a partir dos anos 70, a descoberta do iletrismo ganhou visibilidade. Na França, criou-se o Grupo Permanente de Luta contra o Iletrismo, sendo considerado o legítimo produtor desse discurso, definindo o iletrado como: pessoas com mais de 16 anos que não dominam suficientemente bem a escrita em face das exigências mínimas requeridas por sua vida profissional, social, cultural e pessoal. As pessoas que são alfabetizadas dentro das escolas e que saem do sistema escolar sem adquirir os saberes escolares primeiros por razões sociais, familiares ou funcionais. No Brasil, a definição predominante é de analfabetismo funcional: pessoa incapaz de exercer todas as atividades para as quais a alfabetização é necessária e para o bom funcionamento da pessoa em seu grupo e na sociedade à qual pertence.

Segundo Lahire, na França o iletrismo é declinado da seguinte maneira: pobreza, precariedade, exclusão, jovens em dificuldade, fracasso escolar. Aqui, acrescentamos, o analfabetismo é: nordestino, negro, marginal, excluído.

Jean Biarnès (1998) entende que os conceitos analfabetismo/iletrismo são maculados, pois indicam falhas das pessoas. Por isso, propõe o conceito de letrismo a-funcional, uma vez que, para ele, ninguém está totalmente fora da letra ou dentro da letra. O autor procura compreender a(s) funcionalidade(s) que construímos na relação com a letra: funcionalidades externas, na comunicação com os outros, e funcionalidades internas, na nossa economia psíquica.

Cabe salientar a plausibilidade do chamado analfabetismo de resistência. Isto ocorre quando a letra passa a ser um perigo muito grande de perda da identidade; então, sua a-funcionalidade torna-se uma arma eficaz contra essa perda fundamental.

Um dos maiores problemas do ser humano é aceitar a realidade interior, concebê-la e relacioná-la com o mundo exterior. Para que essa tensão do viver não chegue a extremos, precisamos jogar. Assim, tentamos controlar o que está fora de nós, passando por um processo de desilusão no qual separamos o eu da realidade exterior.

Muitos dos nossos sujeitos aprendiam algo relacionado à língua, ou seja, atuavam vivamente: procuravam reforçar sua identidade, buscavam sua alteridade (o trabalho assim exigia), "amavam" uma pessoa que pertencia ao novo mundo, possuíam projeto de vida, sabiam das suas competências, conseguiam gerenciar tempo e energia, tinham condições de estabilidade econômica, emocional e física. Concluímos que ser considerado letrado a-funcional ou analfabeto de resistência pode ser entendido como um sofrimento para uma pessoa, porque passar da língua oral para a escrita é uma tarefa difícil.

Pierre Bourdieu (1982) faz interessantes afirmações sobre o universo da linguagem, descortinando-o. Ele nos apresenta a riqueza das interlocuções no cotidiano, captando a relação entre os agentes sociais, afirmando que a estrutura social é representada em cada um desses momentos, percebendo-se a hierarquia social no ato da interlocução, no qual há pessoas autorizadas a falarem. O estilo do falante é a característica que aponta sua identidade no grupo. Instaura-se uma situação em que há uma fala menos legítima, ordinária, trivial, vulgar, corrente, livre e popular, ou uma fala distinta, correta e publicável. O espaço de encontro entre o eu e o outro é caracterizado como multicultural e tenso. Nossos sujeitos viviam em situação de angústia, sobretudo quando sabiam que a escrita ou a fala padrão seriam exigidas deles.

Na escola, ocorrem diversos rituais - obter um diploma, proceder à colação de grau - tão mágicos como possuir um amuleto. Ou seja, os ritos e as cerimônias têm o poder de criar diferenças que anteriormente não existiam, ou de reforçar as que já existiam. Ter um diploma age sobre o real no momento de se obter um emprego, como age também sobre a representação desse real. Cria-se uma fronteira entre os excluídos e os incluídos.

Nesse sentido, três afirmações devem ser feitas: 1ª) o aumento do número de adultos matriculados no ensino supletivo não aumenta a possibilidade de inserção social de fato desse mesmo número de adultos; 2ª) as diferentes discriminações, quando relacionadas com os falares, acompanham o indivíduo por todos os lugares do planeta. Por exemplo, coletamos depoimentos de nordestinos em Paris que foram discriminados por alguns sulistas brasileiros, embora, no momento, estejam na mesma situação de vida: excluídos pela sociedade francesa e 3ª) aprender a ler e a escrever bem em Português não garante a cidadania para os brasileiros no Brasil e no mundo.

O conhecimento da língua oficial é feito de maneira desigual, sobretudo pela escola. Por isso, modificações estratégicas são postas em prática pelo falante menos favorecido, no sentido de corrigir o seu discurso e torná-lo mais aceitável. Alguns dos sujeitos desta pesquisa encontravam dificuldades para aprender a ler ou a escrever, sendo que tal resistência pode ser considerada como um sintoma ou uma manifestação do seu inconsciente. Sabemos que há obstáculos para a aquisição da língua escrita, assim como também há facilitadores. Questionamos: O que favoreceu a passagem de uma língua à outra? De uma identidade à outra? O que ajuda a pessoa nessa travessia?

Tendo em vista que muitos sujeitos não conseguiam mudar facilmente de mundo, da oralidade para a escrita, e acabaram ainda por entrar em contato com professores que, por diversos motivos, procuram auxiliá-los nessa passagem de modo equivocado, uma imagem forte de negatividade, de insucesso e de incapacidade formou-se e cristalizou-se para eles. A passagem do mundo oral para o escrito pode provocar problemas intransponíveis, pois significa mudar de mundo. A angústia gerada é tão forte, que a fuga torna-se uma saída possível. Para conhecermos a extensão dessa mudança e como ela ocorre, faz-se necessário o conhecimento da história de vida de cada um dos nossos sujeitos. Faz-se necessário um trabalho pedagógico de renarcisisação da pessoa. Aquele que se acreditava incapaz descobre suas reais capacidades, substituindo uma antiga identidade do ser incapaz pela de ser capaz. O professor e a escola podem tornar-se excelentes instrumentos para transpor tais dificuldades.

Como o professor pode trabalhar com a pluralidade lingüística em sala de aula? Ele precisa conhecer e admitir a sua existência nas salas de aula paulistanas, nas quais o Português tem alto grau de diversidade. Faz-se mister a existência de um contínuo processo interior e exterior de luta contra os diversos tipos de preconceitos. Em suma, a escola e o professor de alfabetização de adultos não podem ignorar a linguagem como um instrumento de ocultação da verdade, da manipulação do outro, de controle, de intimidação, de opressão, de silêncio.

Nilce da Silva é Professora Doutora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo - Área de Estudos da Linguagem.
E-mail : nilce_da_silva@hotmail.com

REFERÊNCIAS

BIARNÈS, J. O ser e as letras: da voz à letra, um caminho que construímos todos. Revista da Faculdade de Educação, São Paulo, jul./ dez. 1998.


BOURDIEU, P. Ce que parler veut dire: l'economie des échanges linguistiques. Paris: Librairie Arthème Fayard, 1982.


CAMPOS, M.S. et al. Trabalho infantil, desafio a sociedade. Análise do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil no período de 1996-1997. São Paulo: IEE/PUC. São Paulo, Brasília: Secretaria de Estado da Assitência Social, MPAS, 1999.


LAHIRE, B. L'invention de l'illettrisme: rethorique publique, éthnique et stigmates. Paris: La Découvert, 1999.

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