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Entrevista - Andrea Ramal

"Inclusão digital não é simplesmente ter uma tecnologia, mas sim ser capaz de pensar, de usá-la criativamente e de maneira produtiva, a serviço dos demais, na construção de uma sociedade justa."

Doutora em educação, pesquisadora do Centro Pedagógico Pedro Arrupe e diretora da Instructional Design, Andrea Cecilia Ramal tem como foco de suas pesquisas as novas maneiras de pensar e aprender produzidas pelas tecnologias digitais. Esse tema está presente também no livro Educação na cibercultura: hipertextualidade, leitura, escrita e aprendizagem, publicado pela ARTMED Editora. Nesta entrevista, Andrea fala sobre inclusão e exclusão digital e sua importância para o ensino e a aprendizagem. "A interatividade provoca uma verdadeira revolução na sala de aula", afirma.

Pátio - Como você analisa a situação do Brasil no cenário mundial e mais especificamente do Terceiro Mundo em relação à inclusão digital? Podemos dizer que somos uma nação de excluídos e analfabetos digitais?
Andrea Ramal
- Somos uma nação de excluídos digitais. No Brasil, cerca de 13% da população têm acesso ao computador, ao passo que em países como Japão e Alemanha esse número é de 80%. Somente 350 dos 5.561 municípios brasileiros possuem provedores locais de acesso à rede. Em São Paulo, 75% dos integrantes de classes D e E, com renda média familiar de R$ 540, nunca usaram computador e 89% nunca acessaram a internet. O Brasil está em pior situação do que alguns países da América Latina: enquanto na Argentina 23% dos domicílios têm conexão à internet, aqui isso ocorre em apenas 8%, sendo que só 4% destes ficam na região Nordeste. Nos Estados Unidos, metade da população está plugada na rede.

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) incluiu um índice para medir o avanço tecnológico dos países, porque reconhece a inclusão tecnológica como um dos fatores decisivos para o desenvolvimento humano. E o Brasil, que está entre as 10 economias mundiais, ficou em 43º lugar entre 72 países analisados, atrás do Panamá e de Trinidad e Tobago, por exemplo. A colocação foi ruim porque em nosso país a tecnologia não chega igualmente às diversas camadas da população. Esse fato é preocupante, pois estamos na era do conhecimento, e tanto o poder político quanto a participação no mercado são cada vez mais derivados do gerenciamento de conhecimento. Se 150 milhões brasileiros não têm acesso a saberes que hoje são essenciais para o exercício da cidadania, o problema atinge a própria competitividade do país no cenário mundial. Se continuar assim, o Brasil perderá participação internacional, mas sem poder atuar ativamente no mercado mais disputado, que é o de produtos que envolvem alta tecnologia e inovação.

Pátio - A situação parece bastante complexa. Existe saída?
Andrea
- O panorama não é irreversível e algumas ações merecem destaque. Uma delas é a alta performance do Brasil no que se chama de governo eletrônico (e-gov), isto é, o uso da internet pelo Estado para difundir informações e serviços ao cidadão. Em uma lista de 132 países estudados pela Divisão de Administração Pública das Nações Unidas, o Brasil aparece em 18º, acima de nações desenvolvidas, como Japão e Itália, e é o líder na América Latina. Porém, o paradoxo é que 90% dos brasileiros não se conectam e não podem beneficiar-se dessa rede democratizadora.

Outra iniciativa louvável é a do Comitê para a Democratização da Informática (CDI), que foi uma das primeiras organizações não-governamentais a atacar a exclusão digital na América Latina. Desde 1995, quando foi criado, o CDI já capacitou 263 mil pessoas de baixa renda em 617 escolas de informática e cidadania em 10 países, e cerca de 92% dos atendidos são brasileiros. Isso ocorre através de escolas auto-sustentáveis, em que o aluno paga uma mensalidade simbólica por cursos de três meses.

Vale destacar ainda os telecentros. O Brasil está juntando-se a outros países latino-americanos nos quais essa experiência está em funcionamento, como Peru ou El Salvador, onde funcionam mais de 100 unidades. Os telecentros são lugares públicos que oferecem serviços gratuitos de informática e telecomunicações, criados com base na idéia de que o cidadão tem o seu poder aumentado quando tem acesso ao conhecimento. Em São Paulo, os telecentros criados pela prefeitura ministram cursos de informática e utilizam softwares livres e sites de serviços ao cidadão para ensinar fundamentos da interatividade e da participação popular na Web. Os 50 telecentros da cidade ficam na periferia e cada um beneficia cerca de três mil pessoas. Claro que essas são ações compensatórias e precisaríamos de políticas públicas mais abrangentes e de maior impacto.

Pátio - E em relação à informática na educação? Qual é o cenário atual em termos de recursos, de políticas públicas e de investimentos? Onde já avançamos e o que ainda está por fazer?
Andrea
- O censo escolar do Ministério da Educação realizado em 1999 revelou que cerca de 64 mil escolas do país não tinham energia elétrica. Diante desse quadro, parece quase evidente o dado de que só 3,5% das escolas de ensino básico tivessem, então, acesso à internet. O relatório de exclusão digital do CDI/FGV indica que há melhoras em alguns estados: em São Paulo, quase metade das escolas públicas tem laboratório de informática (o que está longe de representar uma máquina por aluno, mas já é um começo). Contudo, estamos longe de um verdadeiro trabalho de informática na educação, se consideramos que a instalação do computador é apenas o pré-requisito para um processo bem mais complexo, que envolve a educação para o uso crítico das tecnologias.

Entre os programas governamentais já levados adiante com o objetivo de equipar as escolas e ensinar a usar tecnologia, o mais conhecido foi o Proinfo, que funciona desde 1997. Vi experiências interessantes com os Núcleos de Tecnologia Educacional (NTEs) na Bahia, realizadas pelo Instituto Anísio Teixeira, formando professores multiplicadores. No entanto, em geral, o Proinfo ficou aquém do esperado, pois só conseguiu beneficiar algo perto de 2.500 escolas, menos da metade do que se esperava. Isso representa cerca de 5% das escolas públicas brasileiras com mais de 150 alunos.

Pátio - O que mudou e que avanços têm acontecido a partir da informatização da escola?
Andrea
- Podemos falar em termos de motivação dos estudantes: segundo os professores, ao usar o computador, os alunos sentem-se mais valorizados, sua auto-estima aumenta. Podemos também lembrar a melhora do rendimento escolar: o relatório do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) permite constatar que o desempenho dos alunos que não têm computador é pior do que o dos alunos que usam ambientes digitais, e o desempenho dos alunos que têm acesso à internet também é um pouco melhor do que o dos alunos que não se conectam. Na 8ª série, a variação de desempenho em matemática chega a ser de 20%. Contudo, parece-me que a contribuição mais significativa está na mudança das mentalidades. Creio que os ambientes digitais, pela não-linearidade que oferecem, ajudam a formar novas cabeças, estimulam novas relações com o conhecimento, com o tempo, com a memória social. Além disso, a interatividade provoca uma verdadeira revolução na sala de aula, rompendo com o paradigma estruturalista da emissão-recepção de mensagens. Os alunos são convidados a construir percursos, a ser autores da própria navegação. Tudo isso é potencializado com o uso do hipertexto digital.

Pátio - Aparentemente, em muitos casos, os alunos estão mais interessados do que os professores no uso das tecnologias da informação e da comunicação (TICs) em sala de aula. Os professores têm medo, às vezes resistência, ou não sabem como utilizar os meios disponíveis. O que é preciso fazer para mudar essa realidade? Como motivar os professores a utilizar a informática e a internet na escola, e não apenas na sala de informática, mas sim de uma forma integrada em todo o currículo?
Andrea
- Os professores precisam ser estimulados a usar a tecnologia para aprimorar seu trabalho, o que não significa ensinar-lhes o chamado "pacote Office", pois ele não muda esquemas. Depois de aprender Office, o professor passa a elaborar suas fichas no Word, as apresentações no PowerPoint e as notas dos alunos no Excel. Isso é bom, mas o ensino não vai mudar por causa disso. Vai mudar quando o professor perceber por que a aula que ele dava com um livro didático fica melhor se ele usa um software que ajuda o aluno a desenvolver determinadas competências cognitivas. Sabendo a maneira pela qual seu aluno aprende cada conteúdo no ambiente do computador, o profissional responsável vai dizer: preciso usar esta tecnologia porque com ela meu aluno potencializa determinadas capacidades.

Nesse sentido o computador não substitui, e sim valoriza o papel do professor. Transmitir informações, relatar dados históricos, mostrar mapas, recordar as normas da linguagem... Um computador pode fazer tudo isso muito melhor que nós, com imagens, animações, cores e sons. Para nós, fica a parte mais importante: a do "arquiteto cognitivo". Quem vai planejar os percursos de aprendizagem, os mapas mentais? O professor. Ele vai ajudar o aluno a refletir criticamente sobre a informação, a interpretar a narrativa histórica, a discutir a geografia sociopolítica e a usar a linguagem para se posicionar como um ser transformador diante do mundo. Ele vai cuidar do sentido e dos valores que estão implicados no ato de educar. E, sabendo usar a tecnologia, ele vai desempenhar melhor essa função, pois sua sala de aula será mais atual, com mais recursos, e atravessada pelas questões que nos apresenta a sociedade da informação e da comunicação.

Pátio - Que sugestões você daria para a implantação de um programa voltado à inclusão digital no Brasil? Quais seriam os passos, as metas e os recursos necessários?
Andrea
- Para responder a essa pergunta, precisaria de uma equipe multidisciplinar ao meu lado... Mas vou trazer alguns dados. Creio que o governo anterior não investiu os recursos necessários, nem realizou as políticas públicas que anunciou no que se refere à educação digital. Vejamos o caso dos recursos do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), que provêm da contribuição mensal de 1% da receita das prestadoras de telecomunicação (Lei 9.998). Apenas parte da arrecadação foi realmente usada no programa. De 580 mil computadores que poderiam ter sido destinados às escolas, foram instalados em torno de 23 mil.

Ainda é cedo para avaliar, mas parece que o novo governo tem planos mais arrojados para a inclusão digital. Roberto Amaral garantiu que até 2006 vai implantar computadores com acesso à internet em todas as escolas do Brasil. Isso indica uma parceria entre os ministérios da Ciência e Tecnologia e da Educação. Os dois ministérios estão reavaliando juntos a utilização do Fust e dividindo as tarefas, como a montagem da rede para um, formação docente para outro... Mas tudo isso tem de ser apoiado por um projeto político-pedagógico que leve em conta as desigualdades educacionais e, sobretudo, a idéia de que inclusão digital não é simplesmente ter uma tecnologia, mas sim ser capaz de pensar, de usá-la criativamente e de maneira produtiva, a serviço dos demais, na construção de uma sociedade justa. Esta sim será a verdadeira revolução digital.

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