Os projetos didáticos podem envolver várias disciplinas, porém não deve ser obrigação de um professor sempre estar participando de um projeto. As atividades cotidianas de sala de aula não desaparecem porque há projetos didáticos em andamento na escola. Um professor deve poder optar por trabalhar com unidades didáticas, ou seja, seqüências articuladas de atividades voltadas à aprendizagem de determinados conteúdos.
Era uma vez um prefeito que recebeu boa verba para instalar uma biblioteca pública. O prefeito pediu ao secretário de educação e cultura que coordenasse a elaboração das listas de livros. Para bibliotecário, o prefeito nomeou um senhor conhecido na cidade como pessoa muito organizada e controladora. O bibliotecário assumiu sua função; logo em seguida, chegam as prateleiras. Dias depois, começaram a chegar os livros, que foram meticulosamente arrumados. A poucos dias da inauguração, o prefeito, acompanhado do secretariado, foi visitar a biblioteca.
Ao entrar, todos ficam estarrecidos. O que se via era uma confusão danada de livros misturados pelas prateleiras. Três livros de biologia seguidos de meia dúzia de romances, depois três ou quatro livros didáticos de história. Tudo isso seguido de uma enciclopédia. Depois desta, livros de história, mais romances, um livro de gramática...
O prefeito e os secretários entreolhavam-se sem saber o que dizer. Foi o secretario de educação quem tomou iniciativa, olhando nos olhos do bibliotecário.
Homem, você enlouqueceu?
Claro que não, senhor secretário?
O secretário procurava manter a calma.
Então, o que significa essa bagunça que você fez com os livros? Há todo tipo de livro misturado nas prateleiras.
O bibliotecário, com cara de espanto:
Ah! Não pensei nisso.
E no que você pensou? - perguntaram todos em uníssono.
O bibliotecário assume um tom professoral e dispara:
Bem, esta biblioteca está perfeitamente organizada segundo a ordem de chegada dos livros que recebemos. Naquela extremidade inferior esquerda, encontra-se o primeiro livro que aqui entrou. Ao lado dele, o segundo, depois o terceiro, o quarto e assim por diante. Nada, repito, nada se encontra fora do lugar.
Esta é uma história inventada. Ela é bastante absurda, não é verdade? No entanto, um adolescente que está cursando o 1º ano do ensino médio chega na escola às 7h20min e tem duas aulas de matemática, seguidas de uma aula de geografia e de outra de inglês. Após 20 minutos de intervalo, ele tem uma aula de química e outra de biologia. No dia seguinte, a primeira aula é de português, a segunda, de história...
O que a escola oferece a esse aluno é aquela biblioteca, que ele - quando chega a ter condições - procura entender como foi montada e como pode ser reordenada. Na grande maioria dos casos, os alunos têm de descobrir por conta própria o que houve com a biblioteca. E haja memória para pôr tudo em ordem.
Uma escola tem alunos e tem também professores. Vejamos uma outra história, que não foi inventada. É o exemplo de uma experiência vivida por grande parte dos professores brasileiros.
Um professor de ciências de rede estadual de educação pode chegar a ter 32 aulas por semana (e mais 8 horas para reuniões, estudos, planejamento, avaliação, etc., em um contrato de 40 horas semanais). Nas turmas de 5ª a 8ª séries, cada classe tem duas aulas de ciências por semana. Para completar as 32 aulas, o professor precisa assumir responsabilidades com 16 classes diferentes. Como cada classe tem em média 45 alunos, o professor tem sob sua responsabilidade 720 alunos.
Agora vamos supor que esse professor, que tem 720 alunos para atender, use como um de seus instrumentos de avaliação uma simples "provinha" (o diminutivo indica tempo curto, não sendo pejorativo). Por ser apenas uma "provinha", esse professor gastará na correção uma média de 5 minutos por aluno. Como ele tem 720 alunos, serão 3.600 minutos de trabalho para corrigir tudo. Ou seja, o professor precisará trabalhar 60 horas para corrigir essa "provinha".
Essas duas histórias ajudam-nos a pensar nas condições extremas em que os professores de educação básica encontram-se. De um lado, a enorme exigência em construir uma proposta pedagógica que dê conta de responder à fragmentação do conhecimento, superar a abordagem superficial dos problemas reais que a vida em sociedade apresenta, proporcionar aprendizagens significativas a seus alunos, atender a suas necessidades individuais, próprias em qualquer aprendiz. De outro lado, contar com péssimas condições de trabalho, seja pelo número de alunos, pela inexistência de boas bibliotecas, pela falta de material didático apropriado (livros didáticos e paradidáticos em particular), pelas dificuldades para organizar o trabalho em equipe nas escolas.
Como se tudo isso não bastasse, os professores ainda precisam gastar uma enorme energia tentando acompanhar as constantes mudanças por que passam as exigências e orientações didático-pedagógicas. Exigências essas feitas aos professores pelas secretarias de educação ou pelas direções e coordenações, nas redes de ensino ou mesmo em cada escola. Mudar de escola seriada para escola organizada por ciclos. Modificar critérios de avaliação e de promoção, em muitos casos, sem concordar com eles. Pior ainda, trabalhar com critérios de avaliação e promoção que as famílias não compreendem e, em muitos casos, combatem. Em meio a essa situação, professores, coordenadores, orientadores, diretores e supervisores precisam escolher formas de planejar e implementar a prática pedagógica. Atualmente, "projeto" é a principal palavra associada a essa prática. Projeto político-pedagógico, projeto globalizador, projeto interdisciplinar, projeto de ensino, projeto didático. Projeto horta, projeto cultural, projeto biblioteca, projeto meio ambiente, projeto água.
A seguir, uma modesta proposta de escolha de alguns significados para "projeto". Uma escolha baseada em estudos e, principalmente, em anos de sala de aula desenvolvendo projetos didáticos interdisciplinares com alunos de educação fundamental e ensino médio.
Inicialmente, vamos considerar projeto um conjunto de atividades organizado em função de um problema a ser resolvido, sendo sempre finito. Resolvido o problema, o projeto termina. Nesse sentido, projeto é uma alternativa às atividades funcionais cotidianas, próprias a qualquer organização pública ou privada, como as escolas, os hospitais, as indústrias, os estabelecimentos comerciais, etc. Cria-se um projeto porque existe um problema a ser resolvido e os esforços organizativos e materiais são mobilizados em função de sua solução.
Por exemplo: em uma fábrica, o problema é que está sendo utilizada uma peça feita de material cuja produção utiliza gases estufa e, por isso, torna-se necessário substituir a matéria-prima dessa peça. Um projeto é criado, a equipe deve fazer uma pesquisa de materiais alternativos, um estudo de custos e decidir o novo material a ser utilizado.
Partindo dessa acepção de projeto, podemos imaginar dois tipos de projeto ocorrendo nas escolas: (1) aqueles voltados aos problemas gerais da escola (melhorias físicas, festas, campanhas, convivência, entre outros) e (2) os projetos didáticos, ou seja, projetos utilizados como estratégia de ensino. No primeiro caso, os problemas a serem tratados pertencem à escola como um todo, e as equipes responsáveis podem ser compostas por professores, por educadores em geral, por pais de alunos ou representantes da comunidade. No segundo caso, os projetos didáticos são desenvolvidos em sala de aula, com equipes de alunos. Esses projetos são elaborados com o propósito de construir boas situações de aprendizagem, nas quais se possa evitar a compartimentação do conhecimento e dar aos alunos um sentido ao esforço de aprender.
Os projetos didáticos podem envolver várias disciplinas, porém não deve ser obrigação de um professor sempre estar participando de um projeto. As atividades cotidianas de sala de aula não desaparecem porque há projetos didáticos em andamento na escola. Um professor deve poder optar por trabalhar com unidades didáticas, ou seja, seqüências articuladas de atividades voltadas à aprendizagem de determinados conteúdos. Nas escolas, o ideal é que as decisões sobre que projetos didáticos desenvolver, que conteúdos ensinar por meio de unidades didáticas ou outras formas de organizar o ensino, sejam tomadas pelos professores em equipe.
Os projetos didáticos são importantes porque abrem novas possibilidades de aprendizagem aos estudantes: viver situações em que é necessário tomar uma decisão sobre que caminho seguir; aprender a fazer um cronograma, considerando uma meta e as condições iniciais para realizar o projeto; decidir que estudos realizar para resolver um problema, compreender um processo de transformação ou uma questão política; predispor-se a analisar uma situação social complexa e situar quais disciplinas podem fornecer conhecimentos para esclarecê-la.
Nos projetos, uma característica importante é que a construção do cronograma sempre é dada do fim para o começo. Assim, a elaboração do cronograma deve começar pela data em que se encerra o projeto e retroceder em direção ao presente. Por exemplo, se o objetivo do projeto é a produção de um livro com uma coletânea de contos escritos pelos alunos, então a data de lançamento do livro é a primeira a ser estabelecida no cronograma. A seguir, é preciso decidir a data em que os originais devem estar prontos. Essa data depende de quanto tempo leva para o livro ser encadernado. Se os originais devem chegar à gráfica com 15 dias de antecedência e o lançamento será feito em meados de novembro, então os originais devem estar prontos no final de outubro. Se o projeto está iniciando em agosto, a produção dos contos pode estender-se durante agosto e setembro. Na primeira semana de outubro, cada aluno deverá digitar seu conto e imprimir uma cópia. Esta será lida pelo professor para a revisão final. Por fim, cada aluno faz as últimas correções e chega à versão final. De acordo com o cronograma, isso deve ocorrer até a última semana de outubro.
Nos projetos, os alunos podem tomar decisões, considerando as condições materiais de realização do projeto e o próprio cronograma. O livro será ilustrado? Quem fará as ilustrações? Quantas e em que lugares estarão no livro? E a capa, como será, quem providenciará sua produção, até que data deve estar pronta?
Essa reflexão sobre os passos necessários para a produção de um livro e a confecção do cronograma é um tipo de experiência que os alunos só podem ter participando de um projeto didático. Nesse caso, também podem aprender o que é uma editora, qual a sua organização básica e quais são as principais etapas para a produção de um livro.
Convém ressaltar que a avaliação de um projeto didático deve levar em conta, sobretudo, as aprendizagens feitas pelos alunos durante sua realização. Um projeto é bom pelas aprendizagens que proporciona a seus alunos, não pela qualidade pontual de seu produto final. Fazer uma apresentação considerada linda pelos pais pode ser até importante para as relações da escola com eles, mas não garante a realização das aprendizagens que justificaram o projeto quando de seu planejamento.
Em um projeto didático pluridisciplinar ou interdisciplinar, cada professor participante deve ter definidos seus objetivos educativos próprios da disciplina ou área com a qual trabalha. No caso das séries iniciais do ensino fundamental, uma professora pode desenvolver um projeto didático com seus alunos nos quais ela define objetivos em língua portuguesa, em história e em geografia. Por exemplo, realizar um projeto no qual os alunos aprimoram seus conhecimentos sobre características do texto informativo e desenvolvem sua competência em produzi-lo; então, fazem um primeiro estudo histórico sobre a Grécia Antiga e aprendem a utilizar um tipo de atlas muito comum nas escolas, estudando em particular o Mar Mediterrâneo, sua localização entre a África e a Europa, Gibraltar e o Oriente Médio, os países que banha, a presença da Grécia e do Mar Egeu. Esses objetivos também podem fazer parte de um projeto envolvendo 5as ou 6as séries do ensino fundamental e tendo a participação dos professores de língua portuguesa, história e geografia.
Quanto aos termos pluridisciplinar e interdisciplinar, cito o professor Antoni Zabala (2002, p. 33-34):
"A multidisciplinaridade é a organização de conteúdos mais tradicional. Os conteúdos escolares apresentam-se por matérias independentes umas das outras. As cadeiras ou disciplinas são propostas simultaneamente sem que se manifestem explicitamente as relações que possam existir entre elas (...). A pluridisciplinaridade é a existência de relações complementares entre disciplinas mais ou menos afins. É o caso das contribuições mútuas das diferentes 'histórias' (da ciência, da arte, da literatura, etc.) ou das relações entre diferentes disciplinas das ciências experimentais. A constituição dos diferentes departamentos do ensino médio é um possível exemplo de pluridisciplinaridade. (...) A interdisciplinaridade é a interação de duas ou mais disciplinas. Essas interações podem implicar transferências de leis de uma disciplina a outra, originando, em alguns casos, um novo corpo disciplinar, como, por exemplo, a bioquímica ou a psicolingüística. Podemos encontrar essa concepção nas áreas de ciências sociais e experimentais no ensino médio e na área de conhecimento do meio do ensino fundamental."
Os projetos didáticos não reproduzem esquematicamente as características de projeto tal como definido anteriormente - "um conjunto de atividades organizado em função de um problema a ser resolvido, sendo sempre finito" -, mas vão além dela. Nos projetos didáticos, o problema é substituído pela proposta de produção de um objeto ou ação. Essa produção define o objetivo geral do projeto e também pode ser vista como um problema proposto aos alunos. Além do objetivo geral, o projeto didático deve conter ainda objetivos de aprendizagem (ou didáticos) relativos às áreas ou disciplinas que dele participam. Esses objetivos podem ou não passar por modificações à medida que professores e alunos vão dando vida ao projeto.
Um objetivo geral e uma clara definição dos objetivos didáticos conferem significado às atividades propostas na execução do projeto. Nesse contexto, um projeto pode proporcionar condições para que os alunos aprendam de forma cada vez mais significativa. (Zabala, 2002, p. 96-101).
Por fim, os projetos didáticos podem favorecer a abordagem pela escola de problemas reais e, por conseguinte, complexos. Ainda segundo Zabala (2002, p. 34):
"A metadisciplinaridade, como dissemos, não implica nenhuma relação entre disciplinas. Ela se refere ao ponto de vista ou à perspectiva sobre qualquer situação ou objeto, mas não é condicionada por apriorismos disciplinares. Na escola, deveríamos entendê-la como a ação de se aproximar dos objetos de estudo a partir de uma ótica global que tenta reconhecer sua essência e na qual as disciplinas não são o ponto de partida, mas sim o meio de que dispomos para conhecer uma realidade que é global ou holística. De alguma maneira, podemos situar nessa visão os denominado eixos ou temas transversais."
Alguns exemplos de objetos de estudo: a produção e o destino do lixo em uma cidade (na própria escola ou no bairro em que ela se situa); o controle de epidemias transmitidas por insetos na região da escola; a produção e a distribuição de energia no país e os problemas que levaram ao risco de "apagão" no ano de 2001. Questões amplas como essas podem ser o elemento disparador de um projeto didático. As reflexões sobre suas possíveis soluções levam à eleição dos conteúdos disciplinares que precisam ser compreendidos para que as soluções possam ser construídas, tornando, então, as disciplinas "o meio de que dispomos para conhecer uma realidade que é global ou holística"(Zabala, 2002, p.34).
Vinicius Ítalo Signorelli é professor de Física e Ciências Naturais, formador de professores e assessor pedagógico.
E-mail: viniciuspro@ajato.com.br
ZABALA, A. Enfoque globalizador e pensamento complexo: uma proposta para o currículo escola. Porto Alegre: Artmed, 2002.