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Educação, Biblioteconomia e a Cidade Educadora

Karin Kreismann Carteri

A Cidade Educadora e a Leitura
No I Congresso Internacional das Cidades Educadoras, realizado em Barcelona, em 1990, a Carta das Cidades Educadoras estabeleceu os princípios que regem a cidade educadora, partindo de três dimensões da relação educação-cidade: aprender na cidade, aprender da cidade e aprender a cidade.
A cidade educadora é uma rede de espaços pedagógicos, formais e informais, onde a educação é a chave para a convivência, pressupondo tanto a compreensão e o respeito às diferenças ideológicas, de raça, de gênero, de classe social, quanto da vida, e o enfrentamento coletivo e concreto dos problemas que a afligem (MOLL, 2000, p. 22).
O compromisso com uma educação responsável e inclusiva deve ser de todos os habitantes e todos os recursos da cidade devem estar comprometidos com a ação educadora. Não apenas as escolas, as faculdades, as universidades educam, mas também os museus, os arquivos, as associações de bairro, os centros culturais, as bibliotecas, entre outros, também são agentes educadores.
É uma inovadora concepção de educação, que enfatiza as ações conjuntas de todos os agentes educadores, de diferentes segmentos sociais ou áreas do conhecimento, numa perspectiva interdisciplinar, como a educação e a biblioteconomia já atuam no âmbito do ensino. A biblioteca, como um dos componentes da rede de espaços pedagógicos, possui a sua importância no processo de ensino-aprendizagem, inserido ou não no contexto educacional formal (MOLL, 2000; TRILLA BERNET, 1997).
A relevância da biblioteconomia como agente de mudança social é destacada por autores como Souza, para quem a biblioteca deve sair de suas paredes, através de projetos que a torne visível e integrada à comunidade (1993, p. 41) e para Fonseca, ao afirmar que o bibliotecário deve gostar de livros, mas deve ainda mais gostar de leitores, propondo ainda que a biblioteca seja definida como "uma assembléia de leitores e não uma coleção de livros."(1981, p. 10). Posicionamento corroborado por Ranganathan, um dos primeiros bibliotecários preocupados em estabelecer princípios científicos e metodológicos para a biblioteconomia, expressos em suas cinco leis: livros são para o uso; a cada leitor seu livro; a cada livro seu leitor; economize o tempo do leitor e a biblioteca é um organismo em crescimento. (FIGUEIREDO, 1992).
Promover a leitura é um compromisso de todos, mas cabe ao bibliotecário redimensionar as técnicas biblioteconômicas tradicionais do serviço de referência, desde a promoção da leitura até a disseminação seletiva de informação, transpondo o espaço físico da biblioteca, tornando-a agente na cidade educadora.
Indiferente da formação acadêmica, educadores têm promovido a leitura através de projetos criativos e eficazes, como os que veremos a seguir.

Tapete Mágico - Espaço de Leitura
O projeto Tapete Mágico - Espaço de Leitura, foi criado pelo escritor de literatura infantil Hermes Bernardi Jr., para quem o Tapete Mágico é "um espaço de leitura pública, (...) um vôo nas asas da leitura, (...) Um vôo de ideais em recuperar para as praças e parques da cidade o prazeroso ato de ler." (TAPETE..., 2003a).
Seu projeto foi agraciado com o Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre - FUNPROARTE. Editoras doaram os livros que são disponibilizados em 12 malas dispostas sobre o tapete, confeccionado no primeiro evento, no Parque Farroupilha, em Porto Alegre (o evento percorre diferentes cidades brasileiras). Acadêmicos de letras, pedagogia e biblioteconomia atendem um número médio de 450 leitores por atividade.
Bernardi considera que o Tapete Mágico tira a biblioteca de suas paredes e permite diversas formas de apropriação do texto lido, diferentes formas de conexão entre o leitor e livro, dada principalmente a espontaneidade do espaço de leitura (informação verbal) . É um espaço itinerante e democrático, que aproxima o leitor dos livros, de outros leitores e estes com o imaginário (TAPETE..., 2003b).

Feira de Troca de Livros
A Feira de Troca de Livros, realizada em Porto Alegre, é um projeto do Programa Nacional de Incentivo à Leitura - PROLER, com a participação das prefeituras. Em Porto Alegre, a primeira Feira divulgou bibliotecas e livrarias porto-alegrenses para 10 mil leitores (LIVROS..., 2003, p. 3).
O objetivo principal do Feira de Troca de Livros é, conforme a Prefeitura Municipal de Porto Alegre, possibilitar o aumento dos índices de leitura na cidade democratizando o acesso aos livros através do escambo dos mesmos. (II FEIRA..., 2003).
Na Feira, a troca de livros também é feita pelos próprios leitores, sendo que os títulos permutados são os mais variados, inclusive obras técnicas e científicas. Muitos participantes utilizam carrinhos de feira, mesmo, onde levam os livros para trocarem. (SILVA, 2003a, 2003b).

Leitura na Calçada
Em Pompeu, Minas Gerais, a escritora Edméia Faria criou o projeto Leitura na Calçada, que atende crianças e adolescentes em quatro diferentes pontos da cidade.
Em 1999 o projeto recebeu o primeiro prêmio no concurso Os Melhores Programas de Incentivo à Leitura Junto a Crianças e Jovens de Todo o Brasil, promovido pela Fundação Biblioteca Nacional e pelo PROLER. As obras recebidas como prêmio foram incorporadas ao projeto, cuja principal patrocinadora é a própria Edméia, que promove seminários sobre literatura através da Associação Amigos do Livro e da Criança.
Edméia pretende contar em um livro a história do projeto e afirma: "Quero um brinquedo mágico que divirta, encante e ensine novos valores como o respeito, a amizade e a solidariedade. Um brinquedo mágico que ajude a construir o sonho da criança cidadã." (BADEJO, 2004, p. 42).
Livro na Praça
No Maranhão, em São Luís, a democratização do acesso ao acervo da Biblioteca Pública Benedito Leite foi idealizada pela bibliotecária Rosa Maria Ferreira Lima e sua equipe.
O projeto Livro na Praça, lançado em 1998, percorre praças da cidade, disponibilizando obras literárias aos participantes e "consiste no desenvolvimento de um conjunto de ações culturais, integrando a leitura literária com as demais linguagens artísticas como a plástica, o teatro, a música e outros, tendo o livro como fonte de inspiração." (LIVRO..., 2002, p. 7).
Um carro-biblioteca com equipamentos multimídia amplia as ações de promoção da leitura, que incluem desde a tradicional hora do conto até um original 'bingo literário'.
A partir do projeto, a Biblioteca organizou minibibliotecas nas comunidades atendidas pelo mesmo. O projeto Livro na Praça também foi premiado no concurso Os Melhores Programas de Incentivo à Leitura Junto a Crianças e Jovens de Todo o Brasil.

Conclusão
Estes projetos são exemplos de como a biblioteconomia e a educação podem interagir somando esforços e ações, rompendo limites formais, possibilitando o intercâmbio pessoal e profissional.
Não há como dissociar biblioteconomia e educação e também não há motivo para manter os livros enclausurados, intocados, inacessíveis. Livros são para ser lidos e, como dizia Mário Quintana, analfabeto não é o que não sabe ler, mas o que sabe ler e não lê. Dissociar a leitura da obrigatoriedade das leituras indicadas ou ainda da exigência de educação continuada são caminhos para promover a leitura como um direito, não como uma obrigação formal.
É fundamental e imprescindível que a leitura extrapole o espaço físico educacional e que na Sociedade da Informação e do Conhecimento, bibliotecários e demais educadores propiciem o acesso à informação, matéria prima do conhecimento humano.
A cidade educadora que almejamos depende de nossas ações, hoje. Cidade, educação, livro e biblioteca permeiam estas ações. Facilitar o acesso dos leitores aos livros é um ato democrático. Oferecer um ambiente agradável para a leitura é um ato solidário. Ler é um ato de libertação.


¹ Dados obtidos no debate com Hermes Bernardi, na 49ª Feira do Livro de Porto Alegre, em 14 out. de 2003, às 15h, na Vitrine da Leitura.


Karin Kreismann Carteri é bibliotecária, coordenadora da Biblioteca Sévigné, no Colégio Sévigné, em Porto Alegre. É graduada em Biblioteconomia pela UFRGS e pós-graduada em Educação e Patrimônio Histórico-Cultural pela FAPA. CRB10/1382.
E-mail: karinkreismann@yahoo.com.br

REFERÊNCIAS

BADEJO, Maria Lúcia. Uma Biblioteca no Meio da Rua. Pátio: revista pedagógica, Porto Alegre: Artmed, p. 39-43, v. 8, n. 29, fev./abr. 2004.



FIGUEIREDO, Nice Menezes de. A Modernidade das Cinco Leis de Ranganathan. Ciência da Informação, 1992, v. 21, n. 3, p. 186-191, set./dez. 1992.



FONSECA, Edson Nery da. Tudo o que no mundo existe começa e acaba em livro. Ciência da Informação, v. 10, n. 1, p. 5-11, 1981.



LIVRO na Praça: um projeto de estímulo à leitura. Revista CFB, Brasília, Conselho Federal de Biblioteconomia, p. 7, v. 1, n. 2, maio 2002.



LIVROS para Trocar no Brique. Zero Hora, Porto Alegre, 11 out. 2003. Segundo Caderno, p. 3.



MOLL, Jaqueline. A Cidade Educadora como Possibilidade: apontamentos. Porto Alegre: Prefeitura Municipal de Porto Alegre, SMED, 2002, p. 22-24.



TAPETE Mágico: Espaço de Leitura. Prefeitura Municipal de Porto Alegre, Secretaria Municipal de Cultura, 2003a. Não paginado. Folheto de divulgação.



TAPETE Mágico: Espaço de Leitura. Disponível em: < www.sosportoalegre.com.br/noticias.asp?id_noticia=65 >. Acesso em: 14 out. 2003b.



TRILLA BERNET, Jaume. Ciudades Educadoras: bases conceptuales. In: Cidades Educadoras. Curitiba: Ed. Da UFPr, 1997. p. 13-34.



II FEIRA de Troca de Livros de Porto Alegre. Disponível em: < www.portoalegre.rs.gov.br/cultura/livroeliteratura/regu_troca.htm >. Acesso em: 13 out. 2003.



SILVA, Márcia Flores da. Feira de Troca de Livros [mensagem pessoal]. Mensagens recebidas por < karinkreismanncarteri@yahoo.com.br > em 14 out. 2003a e em 21 out. 2003b.



SOUZA, Francisco das Chagas de. Biblioteconomia, Educação e Sociedade. Florianópolis: Ed. Da UFSC, 1993.

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