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Cultura do tédio

Yves de La Taille

Será que, nos dias de hoje, não estaremos acometidos de tédio? Não estaremos procurando tapar buracos de uma vida vazia? Não estaremos saltando de momentos para outros momentos? De espaços para outros espaços? De fragmentos para outros fragmentos?

É de Benjamin Disraeli o aforismo "a vida é curta demais para ser pequena". Acrescentaria eu: "para quem sofre de tédio, ela é longa demais, porque pequena". A vida é curta! Expressão corrente. Mas por que é empregada? Será uma avaliação objetiva do tempo de que dispomos para habitar o planeta Terra? Será uma queixa relativa à brevidade de nossa permanência no mundo? Um espanto diante do ritmo em que se sucedem dias e noites? Uma maneira de expressar nosso medo da morte?

Sim, essas razões são válidas, mas não esgotam o sentido da brevidade da vida. Durasse nossa vida tanto quanto aquela de alguns répteis, ainda seria curta demais, pois finita. Durasse ela vários séculos, ainda seria breve, pois não eterna. Para quem teme a morte, a vida é sempre curta demais. Quem emprega a referida expressão para lamentar nossa condição provisória pensa em viver apenas para não morrer.

Há, porém, quem tema a morte não apenas porque ela nos priva da vida, mas porque a sua brevidade nos impede de fazer tudo aquilo que gostaríamos. Há quem pense que a vida é curta demais, não tanto como angústia diante do absurdo da morte, mas como frustração existencial. Para essas pessoas, a vida é curta demais porque desejariam fazer mais coisas, conhecer mais coisas, desenvolver mais projetos, criar mais obras, ter e proporcionar mais alegrias. Desejariam sempre dispor de mais um dia para realizar mais uma tarefa. Para elas, não é tanto a vida que está em jogo, mas sim o viver. Para tais pessoas, ativas, subjetivamente a vida de fato parece curta, porque constantemente ocupada com atividades significativas. De modo paradoxal, para aquelas que apenas temem a morte, que vivem por viver, a vida pode subjetivamente parecer longa demais, pois fixada na angústia ou no vazio.

A bela frase de Disraeli é um alerta para essas últimas e para todas aquelas para quem viver se reduz ao existir, ao não morrer. Vida pequena: vida sem sentido, vida sem aprendizagem, vida sem conhecimento, vida sem criação, vida sem projeto, vida sem fluxo, vida sem energia, vida sem potência.


Vida vivida no tédio.

Tédio! Alfred de Vigny, escritor francês do século XIX, dizia que o tédio é a grande doença da vida. E, quando pensamos nesse triste vocábulo, vem-nos à mente a referência ao tempo, um tempo longo, um tempo lento, um tempo que não passa, um tempo que tem tempo demais. O entediado olha incessantemente para o relógio na esperança de que os ponteiros tenham andado o máximo possível, na esperança de que o amanhã chegue logo, que o depois de amanhã chegue logo, que o mês que vem chegue logo. O entediado não ocupa seu tempo, pois é ocupado por ele. Ele não domina o tempo, pois é dominado por ele, é seu prisioneiro. Essa prisão, todavia, não é uma pequena cela, mas sim um vasto deserto do qual ele não enxerga as fronteiras. O entediado se arrasta porque o tempo, para ele, se arrasta. O entediado vive o tempo em fragmentos, em pequenos momentos que se sucedem por pequenos sobressaltos, como aqueles dos ponteiros de um relógio. Para ele, os segundos, os minutos e as horas não se sucedem em um fluxo contínuo: há justaposição de instantes desconectados.

Quando experimentamos o tédio? Quando não temos nada para fazer, ou quando estamos fazendo algo que, para nós, carece de significação. Não ter nada para fazer é diferente do não querer fazer nada. O não fazer nada porque assim se quer corresponde ao ócio. É uma decisão. No ócio não há tédio. Há tédio quando somos obrigados a nada ter o que fazer, quando somos obrigados a esperar que o tempo passe.

Todos nós passamos por situações nas quais apenas nos resta esperar. De pé em uma fila para entrar em um teatro, em um estádio, em um avião, em um ônibus, em um trem; de pé na fila do banco, do cartório, do correio; de pé na esquina esperando a pessoa amada que se atrasou. Sentados em uma sala de espera de um consultório, sentados à espera de que o meio de transporte que nos leva chegue a seu destino, sentados aguardando nossa vez de jogar, sentados de olho no painel no qual aparecerá o número de nossa senha. Deitados enquanto ainda não nos recuperamos de uma doença, deitados à espera de o sono chegar, deitados à espera de o sol se levantar.

Nesses casos, é como se o tempo não passasse, de tão demorados que se tornaram os segundos. Somente uma virtude pode nos ajudar: a paciência. Devemos nos revestir dela para suportar o tédio. Também podemos, enquanto esperamos, fazer algo para "passar o tempo", como se diz: refletir, rememorar, cantar em voz baixa, observar as pessoas a nosso redor, observar cenas, reparar em detalhes do lugar onde estamos e, quase sempre a melhor opção, ler. Assim suportamos o tédio, ou até o suprimimos, porque conseguimos ocupar o tempo. Crianças também passam por situações como essas; porém, de modo diferente de muitos adultos que permanecem inertes com o olhar fixo no além, elas costumam inventar alguma atividade: andam, correm, falam, desenham, brincam. Elas querem ser donas do tempo, não suas escravas.

Há, todavia, situações nas quais até mesmo as crianças não conseguem escapar do tédio. São aquelas durante as quais se está fazendo algo, mas esse algo é desinteressante. Quem já não viu uma criança debruçada sobre uma lição de casa, o lápis na boca, os olhos perdidos no horizonte, os ombros caídos, o corpo sem energia? Trata-se do tédio decorrente da obrigação de realizar uma tarefa que não se deseja fazer. Nesses casos, o tempo também parece lento, parece não passar, parece fragmentado em momentos desconexos.

Tal forma de tédio, contudo, não ocorre apenas quando uma atividade carece de interesse e significação: ocorre também quando a vida em si carece dessas qualidades. Quem diz "Minha vida é um tédio" está afirmando que ela é morna, insípida, vazia, insignificante, triste, melancólica, monótona, rebarbativa, sombria, insuportável, longa demais. Longa demais porque pequena. Não são apenas momentos que não passam; é a vida inteira que se arrasta. Não são apenas horas penosas a vencer; são anos a fio a suportar. Não é por acaso que existe a expressão "tédio mortal".

Várias razões podem levar alguém a associar sua vida ao tédio. Às vezes, trata-se de um destino infeliz que prendeu a pessoa a atividades repetitivas e desinteressantes, um destino que a desviou de lugares, pessoas e trabalhos mais ricos. Todavia, não apenas os destinos cruéis podem trazer o tédio. Até mesmo com a possibilidade de realizar atividades variadas, conhecer pessoas e lugares diferentes, é possível sentir tédio porque a vida carece de sentido. Nesse caso, cai-se na melancolia, na depressão. Ou então, para fugir desse mal, procura-se ocupar freneticamente o tempo, correr de lá para cá, realizar mil atividades diferentes, verificar a toda hora se chegaram e-mails, recados, torpedos; a toda hora mandar e-mails, mensagens, torpedos, ligar do celular para falar de qualquer detalhe, manter incessantemente a televisão ligada na esperança de que notícias graves façam cair do céu um novo assunto que dará a impressão de viver intensamente por alguns dias, comer, malhar, comer novamente, divertir-se, desviar constantemente a atenção com pequenas atividades justapostas. Dessa forma, engana-se momentaneamente o tédio, mas não se o vence, e o tempo acaba voltando a parecer melancolicamente longo porque a vida permanece pequena.

Pergunto-me: será que, nos dias de hoje, não estaremos acometidos de tédio? Não estaremos procurando tapar buracos de uma vida vazia? Não estaremos saltando de momentos para outros momentos? De espaços para outros espaços? De fragmentos para outros fragmentos? Não estaremos "vivendo o dia a dia em vez de a vida inteira", como bem o expressa Paulo Vanzolini em sua canção "Cara limpa"? Não estaremos nos queixando de estresse porque correndo em várias direções, mudando abruptamente de direção, em vez de andar firme e calmamente em um sentido só? Não estaremos em busca inquieta de notícias e de informações porque estamos carentes de nossas próprias perguntas? Não estaremos nos queixando de falta de tempo justamente porque o desperdiçamos? E não o estaremos desperdiçando porque temos urgência em vê-lo passar? Por que, na verdade, ele nos domina? Afinal, por que será que há tantos relógios que se erguem nas ruas, nas praças, nas avenidas e povoam carros, celulares, escritórios, lojas, aeroportos, rodoviárias, quartos, salas, cozinhas, banheiros? Por que essa aparente necessidade de saber, a toda hora, que horas são?

Eu tenderia a responder afirmativamente à pergunta que fiz: estamos em uma cultura do tédio. É esse ponto que gostaria de desenvolver, arriscando-me, com outros autores, em uma análise da contemporaneidade. Digo "arriscar-me" porque, de fato, é sempre um risco refletir sobre o mundo em que vivemos, mundo este que, por mais que nos esforcemos, não temos o devido distanciamento para fazermos julgamentos realmente objetivos. Falo em risco também porque, como escreve Sébastien Charles (2004, p. 13), "a condenação do presente é provavelmente, se a analisamos a longo prazo, a crítica mais trivial proposta pelos escritores, filósofos e poetas desde a noite dos tempos". Sim, existe o perigo de sempre ver o presente com maus olhos, de só ver seu lado sombrio e negar suas riquezas. Procurarei não cair nessa cilada e reservarei um espaço ao resgate de pontos que vejo como positivos e que como tais devem ser assimilados e ampliados pela educação.

No entanto, pontos negativos também existem - e é papel de quem dedica sua vida à academia mostrá-los, analisá-los e, se for o caso, denunciá-los. Escritores, filósofos, cientistas e artistas não deixam de representar a consciência crítica de uma sociedade. Ou, pelo menos, deveriam representá-la. Afinal, há bastante gente interessada em apenas mostrar os lados positivos ou, não raro, em inventar, sem escrúpulos, sua existência. Costuma ser o caso dos políticos que ocupam os governos. Também é o caso dos publicitários que inevitavelmente nos mostram pessoas felizes, sorridentes, cada vez mais risonhas, bonitas, saudáveis. Não se pode angustiar o cobiçado consumidor. Como tais mensagens de felicidade total invadem a mídia, notadamente a televisão,1 a crítica talvez seja mais urgente do que quando não havia tanta propaganda. Em uma de suas canções, Tom Zé - como sempre irônico e crítico - escreveu: "Sorrisos, creme dental e tudo. Mas por que é que a felicidade anda me bombardeando? Diga Zezé? É pra saber que ninguém mais tem o direito de ser infeliz, viu Dodô?".2

Tom Zé cantava isso na década de 1970! Desde então, o bombardeio de "felicidade" foi aumentando de intensidade e hoje, com efeito, sentir-se infeliz é visto mais como incompetência social do que como resultado de uma tomada de consciência implacável. Sentir tédio é visto mais como fraqueza de caráter do que como humilde reconhecimento do vazio da vida. Contudo, como bem o afirma Minois (2005, p. 388) em seu belo livro sobre a história da melancolia3, "o contexto sociocultural contemporâneo produz depressivos e, ao mesmo tempo, os exclui". De minha parte, concordo totalmente com esse diagnóstico e voltarei a ele. Então, falemos um pouco de infelicidade; falemos daquilo que proíbe toda e qualquer ética; falemos da "cultura do tédio".


O peregrino e o turista

Quando se aborda um tema novo ou um "mundo novo", é prudente começar por empregar metáforas, e não conceitos. Não se criam conceitos com facilidade. Para que possam mostrar-se precisos e adequados, é necessário tempo, maturação e reflexão. Enquanto isso, sabe-se que as metáforas desempenham um papel importante na ciência - contanto, é claro, que os cientistas tenham a consciência de que se trata de metáforas. Os conceitos podem nascer de abordagens metafóricas que se mostraram portadoras de sentido.

Será, porém, que estamos realmente vivendo em um "mundo novo", cujas características, diferentes daquele passado próximo, impedem-nos de empregar conceitos que já fizeram suas provas? Tudo leva a crer que, ao menos em parte, este é o caso. Quem já não ouviu falar em "pós-modernidade"? Estaríamos em tempos não mais modernos, ou não mais exatamente como eles eram, mas sim pós-modernos, em tempos que não poderiam mais responder por um antigo adjetivo, mas sim por um novo. É verdade que, quando se nomeia algo com os prefixos "pós" ou "neo", é que ainda não se sabe muito bem o que é esse algo, mas que se reconhece que não é mais como era no passado. A pós-modernidade, o que é exatamente? Ninguém sabe ao certo. E, quando se souber, certamente será inventado um novo conceito. Todavia, que ela não é mais pura "modernidade" parece não haver dúvida. Vejamos, então, a quais metáforas isso pode corresponder.

Começarei por duas, "peregrino" e "turista", que tomo emprestadas de Zygmunt Bauman (2003), um dos mais importantes estudiosos da referida pós-modernidade. Esse pensador polonês não hesita em empregar metáforas para comparar o homem moderno ao pós-moderno. Para Bauman, a própria expressão "pós-modernidade" não passa de uma expressão prática para falar da contemporaneidade. Quanto a mim, vou levar a comparação entre o peregrino e o turista a várias dimensões não contempladas por Bauman que, espero, me perdoará a ousadia.

Ambas as figuras do peregrino e do turista trazem-nos as dimensões do espaço e do tempo. A figura do peregrino evoca alguém que viaja, que anda longamente para lugares distantes. Seus motivos podem ser de ordem religiosa, política ou existencial. A figura do turista também nos evoca viagens a lugares distantes ou não. Entretanto, o motivo do deslocamento não é de ordem religiosa, política ou existencial, mas sim da ordem da curiosidade, da busca de alguns conhecimentos e, sobretudo, da ordem da diversão. É o que sublinha a definição dada pelo Dicionário Houaiss no verbete "turismo": "ação ou efeito de viajar, basicamente com fins de entretenimento, eventualmente com outras finalidades (por exemplo, culturais)".

Logo, o que é semelhante entre o peregrino e o turista é o fato de terem uma meta geográfica: eles querem se deslocar até algum lugar e, para tanto, viajam. As semelhanças, no entanto, param por aqui. A escolha da meta se dá de forma diferente para um e para outro. Para o peregrino, ela é escolhida tendo como base, como acabamos de ver, uma busca existencial. Portanto, para ele há relação entre a viagem e a própria vida. Ele pode ir para Santiago de Compostela porque lá há algo para ver, há algo para experimentar, há algo que faz falta para a completude de sua existência. Ou ele poderá ir a vários cantões para levar a boa palavra, para convencer as pessoas de que tal orientação política é necessária, de que tal movimento deve ser fortalecido. O peregrino também poderá deslocar-se na intenção de conhecer pessoas que - ele sabe - lhe trarão alguma riqueza de vida de que ele carece. Repito, para o peregrino, há relação entre a viagem e o sentido da vida.

Para o turista, isso raramente acontece. Como ele escolhe suas metas? Geralmente, em razão da fama turística do lugar ou de seu lugar na história. Paris, Londres, Veneza, Nova York, Rio de Janeiro, Xangai, Tóquio, etc., ele já ouviu muito falar dessas cidades famosas, colegas cantaram-lhe a beleza, são incontornáveis para o turista minimamente abastado. Vai-se a elas, é um hábito cultural, tanto que é preciso reservar com muita antecedência as passagens e os hotéis. A escolha do turista também pode ser devida a suplementos que viu nos jornais, em prospectos coletados aqui e ali, por recomendação de uma agência de turismo.

O fator moda é importante. E, naturalmente, ela também costuma se dar em função do dinheiro e do tempo disponíveis para viajar. Trata-se de avaliar a exequibilidade do deslocamento: aqueles possíveis serão realizados, enquanto os outros, não. Como se verifica, não há relação entre sentido da vida e a viagem. As escolhas das metas baseiam-se em fatores, por assim dizer, exteriores a ela ou, no mínimo, não intimamente relacionados a ela. O turista costuma viajar durante suas férias, e férias significam parênteses, uma suspensão do tempo durante o qual se trabalha, se luta pela vida, se procura sentido para ela. A viagem do turista é um pequeno fragmento de tempo. A do peregrino é uma ponte entre um antes e um depois.

Decorre do que acabamos de ver que a viagem do peregrino é uma espécie de ato de fé. A do turista, um ato de consumo. A viagem do peregrino é um ato de fé porque movida por uma busca. Como sublinha Bauman (2003, p. 36), "para os peregrinos do tempo, a verdade está alhures: o verdadeiro lugar está sempre um pouco mais longe, um pouco mais tarde". Para o peregrino, atravessar o espaço e o tempo, ir além, é necessário. Ele está em busca de um encontro - e, enquanto esse encontro não acontecer, a viagem deve continuar. O que importa é ir, andar, avançar, não voltar de onde se veio.

Para o turista, voltar é necessário. A volta tem data marcada. A viagem é algo a ser consumido durante um tempo determinado e nem um dia a mais. Um possível atraso na volta é visto como contratempo. É desprazer. O lugar visitado, tão apreciado na véspera, torna-se prisão depois do prazo previsto. "Fiquei retido em ...", diz o turista vítima de uma greve dos transportes. Aquele lugar não contém uma verdade e aqueles dias a mais representam perda de tempo. Se há algo verdadeiro, ele se encontra onde mora, em seu fuso horário. O prazer de tomar o avião de volta é tão grande, se não maior que o de tomá-lo na ida. O critério do turista é estar saciado, satisfeito com seu consumo, e voltar para o seu nicho. Houve curiosidade, não busca.

Um aspecto importante da busca do peregrino é o da identidade. O turista delicia-se com a alteridade. Eu disse antes que, para o peregrino, há uma relação entre a viagem e o sentido da sua vida. A pergunta do plano ético "Que vida viver?" está, portanto, presente em sua empreitada. Contudo, tal pergunta implica outra: "Quem eu quero ser?". Não é possível pensar no sentido de nossa vida sem pensar, ao mesmo tempo, em quem somos ou queremos ser. É por isso que associo à viagem do peregrino uma busca de identidade, uma busca de si.

Nada disso costuma acontecer com o turista. Ele não busca sua identidade; ele leva a sua, em geral vacilante, para todos os lugares visitados. O que ele busca é a alteridade, a diferença, o curioso, o exótico: lá se comem pratos diferentes dos seus, ali as roupas usadas pelos habitantes são estranhas, acolá a arquitetura é típica do local, etc. É bem verdade que existem turistas que nem a alteridade percebem e que preferem encontrar nos locais aonde vão semelhanças reconfortantes com o que estão acostumados a conviver: os fast-foods universais com seus sanduíches planetários, os hotéis cinco estrelas parecidos no mundo todo, os refrigerantes multinacionais, etc. Há outros, porém, que realmente procuram, percebem e apreciam as diferenças e sacam a máquina fotográfica ou a filmadora cada vez que uma delas salta-lhes aos olhos. Eles procuram algumas experiências de estranhamento, de novidade, de situações inusitadas. Tal procura, entretanto, em nada deve afetar sua identidade. O projeto não é morar em um outro lugar, mas apenas visitá-lo.

Do peregrino, é possível dizer que ele vai morar durante algum tempo no lugar para onde ele caminha. Morar aqui tem também sentido metafórico. Não estou querendo dizer que ele não mais voltará para sua casa, mas que o lugar aonde ele chega, alvo de busca de sentido e identidade, contém elementos que ele procurará assimilar, tornar seus. Ele se deixará penetrar por eles, como se fosse um espaço no qual passaria a morar. O tempo que ele passa no lugar-alvo de sua peregrinação equivale a uma adaptação. Para o turista, não. Ele visita os locais, as ruas, os museus, os restaurantes, as praças. Ele não se adapta a estes. Aliás, no mundo do turismo, é o contrário que costuma acontecer: as ruas, as praças, os museus, os restaurantes é que se adaptam para receber os cobiçados visitantes. O turista visita e vai embora. O peregrino, antes de ir embora, vive um pouco como se não fosse mais partir. Foi para isso que ele foi para lá, que ele viajou: para ser do lugar.

Mesmo assim, ele também vai embora. O que ele traz de volta para a sua casa? Se a peregrinação foi bem-sucedida, o que nem sempre acontece, ele traz consigo experiências transformadoras, aprendizagens significativas. Ele leva consigo toda uma memória. O turista, é claro, também pode trazer experiências, aprendizagens e memória, mas não com a mesma intensidade. O que o turista mais traz são recordações, imagens e, quase sempre, souvenirs (recordações/objetos), badulaques, t-shirts, fotos, filmes - e, para os mais cultos, alguns discos e livros. O peregrino não costuma trazer nada de material, apenas sentimentos e sensações que o fazem sentir-se mais leve. O turista traz as malas mais cheias do que na ida.

Falemos agora da viagem em si, do percurso. Peregrinação está associada ao andar, ao ir a pé. No Finistère, por exemplo, região do noroeste da França, veem-se até hoje placas indicando a direção a ser tomada para ir até Santiago de Compostela. Trata-se de pequenos caminhos de terra a serem percorridos a pé. Eles seguem toda a costa atlântica da França, atravessam os Pirineus e tomam a costa norte da Espanha. Centenas e centenas de quilômetros a serem corajosamente percorridos. Porém, o que importa na metáfora do peregrino não é tanto a referência ao andar a pé, mas sim a referência ao tempo. O andar a pé implica ter tempo. O peregrino tem tempo, não tem pressa, não tem dia certo para chegar. Pode até, se quiser, dar-se ao luxo de alguns desvios. Sua viagem não é mero meio para chegar ao local desejado. Ela não é um intervalo de tempo sem significado. Não é simples locomoção sem relação com o ponto de chegada. Ela faz parte da busca de sentido, de identidade. A viagem é, em si mesma, importante, significativa. Não é somente chegar que importa. O caminho que se percorre é parte integrante da peregrinação. O peregrino aprecia a viagem em si, desfrutando-a. Seus olhos observam as paisagens que atravessa, seus ouvidos ouvem as pessoas com as quais cruza. A viagem é oportunidade de contemplação. O peregrino adapta-se aos diversos lugares que atravessa. O tempo e os quilômetros que faltam para a chegada são vividos intensamente. A viagem é desejada por si própria. Não é detalhe, não é, como já foi dito, intervalo de tempo inevitável, tedioso e sem significado.

Para o turista, a viagem é intervalo de tempo dissociado de seu objetivo. Por isso, deve ser rápida. Quanto mais rápida, melhor. Ela é pré-programada: tem dia e hora certa para a chegada e também para a volta para casa. Ela é calculada, é antevista como momentos penosos, longos demais por mais veloz que seja o meio de transporte. Ela deve ser o mais confortável possível. Aliás, conforto é um item essencial para o turista: ele o exige durante a viagem e também nos lugares que visita. Não raro, esse conforto equivale a encontrar pelo planeta todos os elementos que ele mesmo tem em sua própria casa. Se a viagem for longa, ele quer divertimento. Nos navios, há festas todas as noites. Nos aviões, há filmes, assim como em alguns ônibus. Enfim, o turista sofre na viagem e quer esquecer o tempo durante o qual ela dura. Para ele, a viagem está desconectada do ponto de chegada. Ela é um mal necessário. Não tem significação. Enquanto ela dura, o turista procura dormir. Ele a nega.

De tudo o que vimos até agora, pode-se dizer que o peregrino é alguém que tem uma vontade e que o turista é alguém que tem uma esperança. Verbo "esperar". Dois sentidos, esperar o tempo passar e esperançar. É verdade que a sina do turista com frequência é esperar o tempo passar, esperar a sua vez! Ele espera na fila do consulado para obter seu visto, na poltrona da agência de turismo, nos saguões da rodoviária e do aeroporto, no assento de seu meio de transporte, diante da esteira das malas, diante dos guichês das casas de câmbio, nos museus, no Louvre, para passar na frente da Mona Lisa, e em outras ocasiões mais. Pensando bem, todo o processo de uma viagem turística implica horas e mais horas de espera. Não há turismo sem paciência. Mas pode, é claro, acontecer de o peregrino também ter de esperar. A diferença entre ele e o turista encontra-se no outro sentido do verbo esperar, aquele que remete à esperança. O peregrino pouco espera, enquanto o turista espera muito.

Para entender o que quero dizer, é necessário lembrar o belo texto de André Comte-Sponville, intitulado A felicidade desesperadamente (2001). Não se deve entender a expressão "desesperadamente" como relacionada ao sentido habitual de desespero, situação-limite próxima da decadência, da depressão ou da morte. Deve-se entendê-la como contraponto à esperança definida como "desejo que ignora se foi ou se será realizado" (Comte-Sponville, 2001, p. 53). Como destaca o filósofo francês, é comum empregamos a palavra "esperança" para falar de uma espera, de uma expectativa, do desejo de que algo aconteça, sendo que esse algo não depende de nós, não depende de nossas ações, não depende de nossa vontade. Exemplo clássico: esperamos ganhar na loteria. Que podemos fazer senão "torcer"? A figura folclórica do "torcedor" é outro claro exemplo de esperança: deseja-se que o time ganhe, mas nada se pode fazer para isso, a não ser esperar que os jogadores desempenhem seu papel da melhor forma possível. Quanto a eles, faz mais sentido dizer que querem ganhar, e fazem tudo para isso, do que apenas dizer que esperam ganhar.

Por essa razão, Comte-Sponville (2001, p. 56) acrescenta que "a esperança é um desejo cuja satisfação não depende de nós, diferentemente da vontade, a qual, ao contrário, é um desejo cuja satisfação depende de nós". Não devemos interpretar o "depende de nós" da vontade como onipotência ou apenas como opções simples totalmente autônomas. A rigor, sempre somos em parte dependentes de eventos sociais e físicos. O jogador que tem vontade de ganhar depende, é claro, da competência do adversário. Todavia, sua posição é diferente da do torcedor, a quem somente resta esperar. "Esperar é desejar sem poder", diz acertadamente Comte-Sponville (2001, p. 57). Em compensação, quando se trata de vontade, há uma busca ativa para que o desejo se realize. A vontade é potência. A esperança é apenas falta. Citemos mais uma vez o filósofo francês que se vale de uma metáfora que opõe fome a apetite: "Fome é uma falta, um sofrimento, uma fraqueza, uma desgraça; o apetite, uma potência, uma felicidade" (Comte-Sponville, 2001, p. 78). Na esperança há espera angustiada. Na vontade há procura, ação.

Voltemos agora a nosso peregrino e a nosso turista. Quanto a este último, é claro que há um desejo e há um poder. Há a vontade de viajar, de conhecer lugares, de perceber alteridades, e há o poder de decidir realizar o deslocamento. Contudo, para além de decidir e de poder viajar, pouca potência tem o turista. Sua viagem está quase inteiramente sob o signo da esperança: ele espera que seu avião ou seu ônibus não sofra um acidente, que o tempo esteja bom, que não chova, que faça calor, que o hotel escolhido seja confortável, que os lugares visitados correspondam às suas expectativas, que não seja roubado, que não haja imprevistos desagradáveis, que possa cumprir o cronograma pré-estabelecido, que possa voltar para casa a tempo, etc.

O grande inimigo do turista é o imprevisto, sobre o qual ele não tem poder algum. Ele espera que "tudo corra bem". Será o turista movido a apetite ou a falta? Para alguns há apetite, há real motivação para conhecer este ou aquele lugar. Para um número não negligenciável, porém, há apenas falta: há uma necessidade de sair por algum tempo do quadro do dia a dia, há a necessidade de descansar, de tirar férias, há a necessidade de "mudar de ares", de se "oxigenar". Há fome, portanto. Nesses casos, a escolha de para onde ir não corresponde a um apetite real. Quem tem fome come qualquer coisa; quem tem apetite escolhe seu prato com cuidado, pois o próprio apetite orienta-o para isso. O turista que se torna turista para "sair" sofre de fome. O lugar para onde irá, a rigor, pouco importa contanto que seja longe, que seja diferente, que seja possível. Ele abre os prospectos e pergunta-se: "Aonde irei?". O turista com apetite já sabe aonde ir.

O peregrino sempre tem apetite, pois sua busca tem um sentido e uma significação. Ele não se pergunta "aonde irei", pois sabe para onde se deslocar. Ele tem esperança? Em parte sim, uma vez que nada depende inteiramente de cada um. A esperança, porém, desempenha papel menor em sua viagem do que na do turista. Ele não tem grandes expectativas, pois sabe que o sucesso de sua viagem e de sua busca depende essencialmente dele. Ele sabe que, se algo acontecer de errado, se não conseguir encontrar o que procurava, se não conseguir enriquecer sua identidade, a culpa terá sido sua. Ele terá se perdido em sua busca. Seu medo é o de falhar, é o de não ter força de vontade o bastante para chegar aonde quer, o de se ter enganado de busca, de meta, de sentido.

O turista também sente medo, mas este é de natureza bem diferente. Não se trata do medo de se decepcionar consigo mesmo, mas sim com o que encontra, com os outros. Se a viagem não tiver sido boa, será culpa dos outros ou do destino. Seu medo corresponde às suas esperanças, é o medo de elas não se concretizarem. A rigor, o peregrino não tem muito a perder, tem muito a ganhar. O turista tem a ganhar, mas também tem muito a perder. Por essa razão, ele contrata um seguro: seguro-saúde, seguro-acidente, seguro-malas, etc. O peregrino nem pensa nessa possibilidade. Ele nada tem a "segurar". Somente tem a acrescentar.

Vida em migalhas

Qual é a metáfora que melhor retrata o homem contemporâneo? A do peregrino ou a do turista? Já fiz essa pergunta a várias pessoas em diversas ocasiões, e a resposta habitual é: a do turista.

Será porque o peregrino evoca imagens de um passado longínquo, até mesmo medieval? Será porque o turista é um sujeito da contemporaneidade, que lota, a cada mês de férias, a cada semana de folga, a cada feriadão, aviões, hotéis, cidades? Não se deve, é claro, descartar essa hipótese. Todos nós somos ou fomos turistas. Uns foram mais longe, mais vezes, outros mais perto, menos vezes. Ora, quem nunca fez ao menos uma viagem turística? Contudo, não se trata de metáfora nessa hipótese. O que importa é saber se o turista corresponde não às nossas viagens reais, mas sim a uma metáfora de nossas vidas cotidianas. A mesma pergunta se coloca para o peregrino.


NOTAS
1. Existe, por exemplo, um supermercado que se diz "lugar de gente feliz".
2. Dodô e Zezé, gravada no LP Tom Zé dos Olhos (1973).
3. O livro intitula-se Histoire du mal de vivre, sendo que a expressão "mal de vivre" (traduzida ao pé da letra) é uma forma poética para se referir à tristeza, à depressão e à melancolia.

Este texto foi publicado originalmente no livro Formação ética: do tédio ao respeito de si, de Yves de La Taille (Artmed, 2009).

REFERÊNCIAS

BAUMAN, Z. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Ja¬neiro: Zahar, 2004.

COMTE-SPONVILLE, A. Petit traité des grandes vertus. Paris: PUF, 1995.

CHARLES, S. L'individualisme paradoxal. In: LIPOVETSKY, G. Les temps hypermodernes. Paris: Grasset, 2004.

MINOIS, G. Histoire du mal de vivre: de la mélancolie à la dépression. Paris: Editions de La Martinière, 2005.

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